segunda-feira, 16 de abril de 2012

VIAGEM À TERRA DA INFÂNCIA




“Mas me parece certo que a infância só existe quando irremediavelmente perdida. Sua ausência estabelece tamanho vazio que se torna impossível olvidá-la. Vazio que se preenche com os conteúdos da razão, mas que se amplia pela intuição e memória.”

(Bartolomeu Campos)

Era tarde da noite. Só o brilho de umas poucas estrelas iluminava o céu. Eu conduzia o carro por uma estradinha de terra batida. Comigo iam três de minhas irmãs. Foramos à vila para assistir ao casamento de uma prima. Agora nos dirigíamos à fazenda de meu tio Ninim, pai da noiva, onde nos hospedaríamos. Em vão, procurávamos os rastros da comitiva de uns vinte carros, a uns oitocentos metros à nossa frente. Mas as marcas de pneus não existiam. Parecia que por aquela estrada, se andava a cavalo ou, quem sabe, em carro-de-boi. Não havíamos percebido em que momento a larga estrada de cascalho se estreitara e se transformara na estrada recoberta de areia branca. 
 De vez em quando, esperançosas, ligávamos o rádio: não funcionava. Tentávamos informar nosso paradeiro aos primos e pedir ajuda, mas meu celular não tinha sinal, outro descarregava e o próximo não funcionava. Em cada encruzilhada, um dilema: Por onde seguir? A irmã mais velha escolhia o caminho da direita, e íamos parar na trincheira de uma fonte ou numa cerca de arame. As mais jovens estavam perdidas. E eu? Saíra da Matinha há quase meio século, aos sete anos. Não conseguia lembrar direito de caminhos percorridos há tantos anos.
De vez em quando, parávamos a cantoria nervosa para escutar, ao longe, o pio agourento de uma coruja e no mais, era o silêncio. As fazendas pareciam desertas e abandonadas.
Meu carrinho continuava valente, desbravando o desconhecido e iluminando fracamente a noite que nos envolvia como uma capa de baeta. Cada uma de nós tentava reconhecer marcas impressas na memória da infância: a venda de seu Juvenal; a casa de dona Catarina; a fazenda de tio Edgar; o caldeirão de Zé Preto, o açude de Vavá... Mas  nada. Tudo parecia mudado, estranho, diferente.
 A noite avançava fria e misteriosa. Seus fantasmas gasosos esvoaçavam em torno de nós, e a penumbra nos envolvia. A lua pequena e redonda pouco iluminava o caminho, e cheguei a suspeitar de que ela se escondesse entre as nuvens sempre que a estradinha penetrava no matagal. Valei-me, Nossa Senhora! – eu suplicava em silêncio.
O tempo voava – diziam nossos relógios, implacáveis – mas o mundo inteiro havia parado. Sem luz acesa, choro de criança ou gemido de idoso, as casas pareciam desertas. Nas vendas não havia, por baixo da porta, uma réstia de luz que indicasse movimento de jogo. Nem as folhas se mexiam. Tudo parecia etéreo e irreal, como se fosse o cenário de um filme de terror.
  Num galho de baraúna, os faróis iluminaram uma coruja silenciosa e preocupada. Diminui a marcha, contente de avistar um vivente. Tentei conversar, na esperança de alguma pista. Indiferente, soltou um pio e debandou num vôo desordenado, como se também estivesse perdida. Ao longe, pareceu-nos que gargalhava de nosso infortúnio.
De repente, a estrada se bifurcou. Assustadas, percebemos que já havíamos passado da entrada da fazenda. Não vimos a cancela! O jeito era voltar ou seguir em frente tornando a viagem ainda mais longa.
Verifiquei o combustível, e decidimos continuar em frente. Chegaríamos à fazenda pelo lado oposto. Esse caminho era conhecido: por ele, chegaríamos a nossa antiga fazenda. Essa certeza nos acalmou um pouco.
Logo comecei a reconhecer aquelas paragens. Num impulso, estanquei o carro para observar melhor. Estamos, chegando à fazenda Paratigi – afirmei com convicção. Olhei em volta, extasiada. Tinha certeza de estar pisando em território de fadas e dragões. Estávamos muito perto do Sobrado. Minhas irmãs, nervosas, discordavam. Era impossível havermos feito uma volta tão grande. Então havíamos passado pela fazenda de tio Edgar e pelo açude sem reconhecê-los?
Prossegui lentamente até avistar um terreno amplo e circular. Com o coração acelerado, gritei: Estamos perto do Sobrado! Nenhuma delas acreditou, mas o carro desceu a ladeirinha e estancou. Dali, avistamos o Sobrado. Sua misteriosa silhueta negra apareceu diante de nós – recortada contra o céu cinzento – envolta em brumas, fantasmagórica, tal qual nos meus sonhos. Um medo antigo me assaltou: o casarão era mal-assombrado; muitos escravos morreram na cafua; um dos donos se suicidara; almas penadas ofereciam tesouros enterrados. Foi um alívio deixarmos o casarão para trás.
         Adiante, era preciso atravessar a pontezinha do rio Paratigi. De longe, vi que estava seco. Parei no alto com o coração descompassado. Carregava comigo a velha imagem do rio: largo, cheio, perigoso. Era desse rio que tinha medo. Tomei coragem e já descia a ribanceira do velho Paratigi, quando percebemos – desorientadas – que não mais existia a pequena ponte! Com certeza, fora destruída por uma enchente. A não ser que estivéssemos atravessando outro trecho do rio. Que noite!
O carro passou, aos solavancos, arrastando-se sobre as pedras maiores. Mal subimos a ribanceira, ouvimos um estrondo. Quando olhamos para trás, vimos – em transe – que o rio enchia rapidamente. O canguçu rugia, escuro, traiçoeiro, barulhento... Era de novo o rio de nossa infância. Ao amanhecer, uma comitiva de cavaleiros iria ver a enchente. Era assim antigamente.
 Depois do rio, era seguir direto até a fazenda Matinha, a primeira fazenda de meu pai. Dali, seria fácil chegar ao nosso destino. Estávamos tão perto! Breve, passaríamos perto da pequena mata que nomeava a região.  Há tempos, soubemos que fora derrubada para o plantio de capim – a nossa mata – com seu riacho amarelo e seu cheiro de orquídea. Na cerração da madrugada, tínhamos a impressão de avistá-la ao longe. Embora continuássemos, às cegas, sem reconhecer os lugares, já não tínhamos medo. Envoltas no manto da noite e na névoa do sereno, cada uma de nós, a seu modo, se preparava para adentrar um território sagrado: a terra da infância. Era para lá que a estradinha de areias brancas nos levava.
 Próximas de nossa antiga casa, sentimos cheiro de velame e de angélicas selvagens. Parei o carro em frente a casa, sob a copa da baraúnas – as mesmas onde brincávamos – fomos recebidas pelo perfume intenso e adocicado dos jasmins, as flores de nosso quintal. O velho casarão silencioso, nos espiava depois da malhada. Era a mesma casa onde havíamos nascido: as paredes caiadas de branco, as janelas azuis, a casa de farinha transformada em depósito, o curral grande, outro menor. Talvez ainda existisse o velho pilão, o fogão de lenha e o tacho de cobre onde nossa mãe cozinhava o requeijão.
 Se pulássemos a cerca, depois da ladeira nos fundos, chegaríamos ao riachinho e nos banharíamos em suas águas escuras.
Não, nós não pulamos a cerca.
         Seguimos para a casa do tio. Íamos as quatro, conscientes de havermos viajado por um reino solitário e inatingível – o reino da infância.
                                                                      
                                                                                     ( Fevereiro de 2008)










   
 
                                                           
                                                                                                                                                                                                                                                              

segunda-feira, 19 de março de 2012

VIAJANDO COM ALEILTON FONSECA

Foto de Sebastião Salgado


ENCONTRO COM “NHÔ GUIMARÃES”

Esse é o segundo comentário de leitura que faço do livro de contos “O Desterro dos Mortos” do autor Aleilton Fonseca. Falo do conto “Nhô Guimarães”.

Desde o título, percebi que aquela prosa iria ser boa. Apeei do cavalo pouco depois de Aleilton, e fui logo me acomodando. Ele já sentara perto da velha sertaneja, tomando nota de tudo que ela dizia, do mesmo jeito que ela falava: “O senhor se querendo, anote.” É isso mesmo, não se engane, não! O moço que chegou a cavalo e foi confundido com Guimarães Rosa – Nhô Guimarães – como era conhecido nos Gerais, é Aleilton Fonseca. Aliás, pretendo demonstrar que ele se faz presente em quase todas as histórias desse livro. Isso não é fácil de perceber, mas um leitor mais atento descobrirá que ele se presentifica no ambiente das histórias, através de um alter ego – um jovem instruído – oriundo da cidade grande, mas de origem sertaneja. Esse moço viaja – precedido pela Morte – para reencontrar pessoas ou, simplesmente, para recordar o passado.
Nesse conto, intitulado “Nhô Guimarães”, o moço chega a cavalo, apeia na casa da velha e passa a ser, apenas, o ouvinte. Não há nenhum registro de fala sua, embora a velha  lhe dê conselhos e lhe faça perguntas retóricas...  Assim, ele está onipresente em toda a narrativa, escutando o relato da velha senhora, aceitando café coado na hora e bebendo água do pote: “Assunte esse diálogo e pronto, depois a gente prova mais um café coado.” Aleilton Fonseca poderia (ele é o dono da história) ter escolhido esse personagem como narrador. Mas, não. O narrador é a velha sertaneja, e, nisso reside grande parte do encanto desse conto. O autor dá voz a essa mulher que – num monólogo ininterrupto – relembra e revela episódios de passado, principalmente as visitas de Nhô Guimarães, a quem ela define como "um homem de sobejas importâncias". É o mesmo processo narrativo do autor Guimarães Rosa, no livro Grande Sertão: Veredas. Ali, o sertanejo Riobaldo recita um monólogo revivendo o passado de jagunço e a trágica história de amor com Diadorim, ao confiá-la a um ouvinte de passagem por sua fazenda. Ao usar o recurso do monólogo, Aleilton pode, livremente, registrar a linguagem oral do sertão, pontuada de arcaísmos (prosar, pitos... perquiriu, assuntar) e de frases saborosas: “Ah, me deixe! Eta, diaaaá! Ah, pois não é?”  Essa é a linguagem do povo do sertão – pessoas de muitos saberes e pouca instrução – um dialeto cheio de palavras e ditos que há muito caíram em desuso na cidade grande e cercanias.
Então, essa linguagem, assim como o fio da narrativa em forma de monólogo – na voz de um personagem sertanejo – a relembrar o passado, reafirma aquilo que já se anunciava no título: o conto “Nhô Guimarães” é uma homenagem ao escritor Guimarães Rosa. O tempo inteiro, Aleilton Fonseca nos conduz com seu fio mágico pelas veredas do sertão e nos enreda numa teia, que semelhante a uma ponte pênsil, nos leva ao já citado romance de Guimarães Rosa, num movimento contínuo de vai e vem.
Chama minha atenção, também, o fato do narrador-personagem ser uma pessoa idosa: octogenária, independente, ativa e lúcida. Ela recorda o passado e revive fatos importantes guardados em sua memória afetiva e os presentifica através do ato de narrar. Isso a faz viver com plenitude: “Eu narro, no gosto de contar o causo, até melhor que a realidade.” Com esse personagem, o autor reverencia o idoso como alguém que acumulou inúmeras experiências, donde deriva sua sabedoria. A octogenária, em vários momentos, previne e aconselha o moço da cidade que escuta sua narrativa: “O bem e o mal, esses amigos, andam de abraços: todo cuidado é pouco”. Ou “Fique no aguardo: de vez em quando o tempo dá um suspiro”. Além disso, ela retoma o papel de guardiã do passado, uma tradição que vem desaparecendo em nossa sociedade, que supervaloriza a juventude e despreza os mais velhos. Quem sabe, guardar e recordar o passado não seria um modo prevenir o mal de Alzheimer?
Destaco, ainda, o fato de que o personagem é mulher. É uma mulher plena, sábia, legítima representante do feminino sagrado. Ela parece erguer-se de um passado longínquo onde a mulher era a sacerdotisa, a senhora da criação, a guardiã de vastos saberes. Esse papel se evidencia em suas próprias palavras: “Hoje eu mando em tudo, estou no meu direito“; “Reconto a vida do meu jeito que gosto muito de prosar comprido”.
Nesse ponto, eu poderia encerrar minhas inferências de leitura, mas me comprometi, desde o título, a fazer o relato de uma viagem. Então, retomo esse destino relembrando a chegada.
Depois de tomar assento, fiquei escutando a prosa comprida da velha e, à proporção que ela contava os causos, eu tinha a impressão de que a pequena casa ia sendo povoada por aqueles personagens: Manu, o finado marido; o filho desaparecido na cidade grande; Nhô Guimarães, vestido com o gibão de couro preto, dando risadas, a fazer anotações das prosas de Manu. Até Manuelzão passou de relance tocando uma boiada. Porém, a certa altura da prosa, meu pensamento voou, que em pensamento ninguém manda, e eu arribei dali e fui seguindo por uma veredazinha pracatá, pracatá, pracatá... Quando dei por mim, estava no sertão de dentro – no meu sertão interior – território sagrado com cheiro de velame, som de berrante, gosta de umbuzada, banho de riacho e céu estrelado. Essa é uma das mágicas da arte literária, não é mesmo?
Pois então, doutor Aleilton, vou me demorar nesse pouso, porque tem muita gente querendo seguir viagem comigo: é vaqueiro, é cigano, é maluco, é rendeira, é parteira e até assombração.
Encerro está viagem (com um recado para vosmicê e para todo mundo) parafraseando a velha sertaneja: Eu escrevo, no gosto de contar histórias, até melhor que a realidade. Há muito aprendi que as histórias têm poder de cura, pois através delas podemos dar passagem aos apelos do sentimento, sendo que a maior parte de sua beleza consiste no jeito de contar.

quinta-feira, 8 de março de 2012

HOMENAGEM AO DIA INTERNACIONAL DA MULHER - UMA MULHER EXTRAORDINÁRIA

FRIDA KAHLO

 
“ Piés para que los quiero, si tengo alas pa’ volar?”


 Nessa data, 08 de março, em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, escolho Frida Kahlo como símbolo do feminino; uma mulher do século XX, forte e passional, capaz de viver com toda intensidade uma vida marcada pela tragédia e pelo sofrimento.  
Admiro Frida Kahlo sob todos os ângulos de sua pessoa emblemática.  A primeira coisa que soube sobre Frida foi através de sua pintura. Abri um jornal, folhei o caderno de arte, e ali, estava uma fotografia da tela “A Coluna Partida”, tomando a página inteira. Prmeiro, levei um choque e fui tomada por um sentimento de estranheza e de inquietação, diante da representação de uma mulher crivada de espinhos; depois, por uma forte emoção. Li a matéria e descobri que era um autorretrato de Frida Kahlo, uma pintora mexicana. Desde então, enchi-me de crescente admiração por essa mulher extraordinária e por sua pintura original e comovente, indissociáveis uma da outra. Olhando as telas de Frida, é possível saber muito da mulher ousada, desafiadora e sofrida que ela foi, uma vez que o tema de sua arte é ela mesma, como afirmava: ''Pinto a mim mesma porque sou sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor.'' Mas, ao mesmo tempo, é preciso conhecer um pouco de sua vida para compreender melhor a sua pintura.
 Magdalena Carmen Frieda Kahlo y Calderóron, Frida Kahlo nasceu no dia 6 de julho do ano de 1907, na cidade de Coyoacán, próxima da Cidade do México, atualmente um distrito. Ela veio ao mundo dentro da própria casa de seus pais que ficou conhecida como La Casa Azul (A Casa Azul), hoje, Museu Frida Kahlo
                                                   Museo La casa azul
Seis anos depois, seu corpo sofreu o primeiro estrago: a poliomielite a deixou coxa por causa de problemas no pé e na perna direita.  Na adolescência, tentando esconder esse defeito, passou a usar calças compridas; mais adiante, saias longas, coloridas e extravagantes  – referências explícitas de sua origem indígena e espanhola – que se tornariam uma de suas marcas registradas e, em nossos dias, fonte de referência no mundo da moda.
Com dezoito anos, ela voltava da escola, quando o ônibus em que viajava chocou-se com um bondeO pára-choque de um dos veículos perfurou-lhe as costas, atravessou sua pélvis e saiu pela vagina, causando uma grave hemorragia. Frida ficou muitos meses entre a vida e a morte no hospital. Foi operada diversas vezes para reconstruir seu corpo, que estava todo perfurado. Tal acidente obrigou-a a usar vários tipos de coletes ortopédicos, e foi, nesse momento trágico, que ela encontrou uma saída na arte. Durante a sua longa convalescência, começou a pintar seus autorretratos, usando a caixa de tintas de seu pai e um cavalete adaptado à cama. Nesse período pintou aquele que é considerado um de seus trabalhos mais belos e expressivos: a tela intituladaA Coluna Partida”
                                           A coluna Partida

Nesse autorretrato, que tanta emoção me causou, não é difícil perceber a determinação e a coragem de Frida, de cabeça erguida, apesar das lágrimas e da expressão de tristeza e sofrimento.  Seu corpo está rasgado ao meio, sustentado por uma coluna toda fraturada. O colete de tiras, que parecem de aço, aperta seu peito e sua coluna. O seu corpo crivado de espinhos, até por cima da saia, faz lembrar o suplício de uma santa. O deserto, ao fundo, ressalta sua solidão e seu sofrimento.
 Frida, aos poucos, convalesceu-se do acidente, mas seu corpo ficou com lesões e dores, que a acompanhariam por toda a vida e a levariam a submeter-se a dezenas de cirurgias. Ela passou a maior parte do tempo de sua breve existência, deitada numa cama, sofrendo dores que muitas vezes não conseguia suportar. Mas, apesar das limitações e do sofrimento (uma das razões da grande admiração que desperta) e do pouco estudo de desenho antes do acidente, Frida conseguiu aprender pintura, sozinha, pintando autorretratos e retratos dos parentes.
Em 1928, três anos após o acidente, Frida entrou para o Partido Comunista Mexicano. Lá, conheceu o pintor muralista Diego Rivera, com quem se casaria um ano mais tarde. Foi um casamento de amor e de muito interesse políticos e artísticos em comum. Frida amava Diego loucamente e deixou vários registros do que ele significava para ela e de quanto o amava: ''Diego está na minha urina, na minha boca, no meu coração, na minha loucura, no meu sono, nas paisagens, na comida, no metal, na doença, na imaginação.''
 
                             Frida e Diego

          Sob a influência da obra do marido, a pintura de Frida Kahlo evoluiu. O artigo publicado no site Casa Operária em 12 de agosto de 2007, ano do centenário da artista, analisa sua evolução artística:
 “Ela adotou o emprego de zonas de cor amplas e simples, características da arte popular mexicana. Procurou na sua arte afirmar a identidade nacional de seu país, por isto adotava com muita freqüência temas do folclore e da arte popular do México. Ao lado de Diego, Frida foi adquirindo brilho próprio, por seu trabalho possuir um estilo incomum para a época, principalmente para uma mulher. Dezenas de nomes do mundo artístico e intelectual estiveram ligados a Frida Kahlo durante este período: André Breton, Julián Levy, Leon Trotsky, Tina Modotti e David Alfaro Siqueiros. A primeira exposição da obra de Frida foi realizada em Nova York, em 1939 e, em seguida, viajou a Paris. Foi a primeira artista mexicana a expor no Museu do Louvre. Em 1943, tornou-se professora de pintura em “La Esmeralda” em Coyacan, uma escola de artes vinculada ao Ministério da Educação.  No México, sua primeira exposição foi acontecer apenas em aconteceu em 1953, um ano antes de sua morte.”
                                      Auto-retrato com Colar de Espinhos
Um fato interessante sobre a exposição no seu país, tão longamente esperada, é que Frida, contrariando ordens médicas, compareceu deitada numa cama. Contam que passou a noite bebendo tequila e dando muita risada com os amigos.
Mas nem tudo correu bem em sua ligação com Diego Rivera. O casamento foi marcado por muitas brigas e traições de ambas as partes. Diego, embora achasse natural Frida relacionar-se com mulheres, não tolerava que se envolvesse com homens. E ela sofria demais e desesperava-se com as traições do marido. Por isso, alguns biógrafos afirmam que seus romances extraconjugais eram motivados pela vingança. Seu marido foi amante de Cristina, a irmã mais nova dela, e Frida só descobriu isso quanto encontrou os dois na cama de Diego. Eles mantiveram um caso por muitos anos e tiveram vários filhos.  Após o flagrante, para vingar-se do marido, Frida cortou seu cabelo enorme, que ele tanto venerava. Separou-se de Diego e deixou residência do casal em San Angel, onde moravam em prédios ligados por uma ponte. Mas, depois de alguns anos e do divórcio, pedido por Diego, voltou para o ex- marido. Casaram-se novamente e foram morar na Casa Azul. Tiveram um segundo casamento tão ou mais tumultuado que o primeiro. Ela passou a viver uma vida triste, entre brigas com amantes de Rivera e tentativas de suicídio. Em seu diário, ela assim analisa seu relacionamento com o marido: "Diego, houve dois grandes acidentes na minha vida: o bonde e vc. Vc sem dúvida foi o pior deles." 
                                                         A Corsa Ferida

 Além do sofrimento com as traições do marido, carregou consigo outra grande dor: nunca conseguiu dar a luz a um filho. Ela engravidou algumas vezes e, em todas, abortou.
Todas as experiências boas ou ruins estão fixadas em sua obra, essencialmente, autobiográfica. O artigo, já citado, continua analisando a arte revolucionária de Frida Kahlo:
     “Seus quadros tem como característica básica o fantástico, que frequentemente é taxado de surrealista, uma terminologia imprecisa porque, enquanto os surrealistas pintavam o subconsciente, o escondido, o sonho, o irreal; Frida pinta as emoções por que passou. Ela mesma declarou mais tarde: "Acreditavam que eu era surrealista, mas não o era. Nunca pintei meus sonhos. Pintei minha própria realidade". Por meio dessas obras, é possível identificar as diversas passagens de sua vida. Como as referências ao acidente, as dores na coluna, a poliomielite, os abortos, o desejo da maternidade, que nunca realizou, as frequentes internações. O fantástico em Frida é o real, o consciente. A sua pintura é única; é a biografia de suas lutas e sua tragédia pessoal. André Breton escreveu: “ A Arte de Frida Kahlo é um garrote em torno de uma bomba”. Frida impressiona! A sua frágil figura contrasta com a força de sua procura por liberdade e sua tragédia, Frida transformou a pintura em um instrumento de libertação pessoal, algo que pode ser observado em uma das mais comoventes passagens de seu diário: ''Pintar completou minha vida. Perdi três filhos e uma série de outras coisas, que teriam preenchido minha vida pavorosa. Minha pintura tomou o lugar de tudo isso. Creio que trabalhar é o melhor.''
                                                  Dois Nus na Floresta
                                                            
        A característica revolucionária de sua obra reside no fato de ter sido umas das primeiras artistas a retratar de modo realista, agressivo e, ainda assim erótico, a feminilidade. Dentro de uma linguagem visual própria e original, ela pintou seus quadros com temas como a gravidez, o parto e o aborto. Em outra tela, um belo exemplo de seus inúmeros autorretratos (outro traço marcante de sua produção), "Diego no meu pensamento", podemos encontrar também características importantes da obra da pintora: a representação da sua imagem, a exposição da sua própria vida, com a imagem de seu grande amor lhe surgindo na testa ; e a indumentária tradicional mexicana, aliada a uma certa tropicalidade, que remete ao clima quente mexicano, com a saturação de cores e o ambiente térreo de tons alaranjados.
 
                                                                     Diego em Minha Mente
                                         
     Em 13 de julho de 1954, Frida, com 47 anos de idade, é encontrada morta. Seu atestado de óbito constatou embolia pulmonar, devido a uma forte pneumonia, mas a possibilidade de overdose de remédios também não fora descartada, sendo a mesma, acidental ou não. Existem suspeitas de suicídio, mas também, de que possa ter sido envenenada por uma das amantes do marido.
       Na última frase, escrita em seu diário, Frida despediu-se assim: "Espero que minha partida seja feliz, e espero nunca mais regressar". Porém, essa mulher extraordinária eternizou-se nas pinturas; no seu diário, traduzido em outras línguas; nas telas, com os filmes: Frida Natureza Viva (1983) do diretor Paul Leduc – filme mexicano. E Frida (2000) da diretora Taymor – filme norte-americano.




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segunda-feira, 5 de março de 2012

DONA FELIPA

            




Hoje, antes de dormir, resolvi escrever sobre uma figura muito especial, um dos personagens que habitam minha infância. Vou lhes apresentar Dona Felipa. Há muito tempo, essa fulana estava esperando que eu lhe deixasse sair do baú da memória e lhe desse voz, assim por escrito, que ela era cheia das vaidades e das importâncias, como vocês mesmos hão de comprovar.
 Imaginem, vocês, que, um dia desses, fui com minha mãe visitar uma amiga que se achava muito abatida, de caruara, como diria Dona Felipa, e quando lhe contei uns causos dessa dona, Lúcia Araújo deu tanta risada que, no final da tarde, estava tão animada que nos convidou para um café sertanejo que ela mesma prepararia no dia seguinte. E não é para me gabar, não, que o mérito é de Dona Felipa, mas depois do café sertanejo, em que lhe presenteei com uma sacola de batatas doces, em nome de minha personagem, Lúcia ficou tão íntima de Dona Felipa, que agora vive a convidá-la para casamentos, batizados e aniversários de sua família. Ah, e as duas tratam-se por comadre! Minha amiga, pessoa de imaginação fértil, não vê nada demais em manter camaradagem com um personagem; e, como espírita praticante, acha normal relacionar-se com alguém que mora no além. Mas chega de dispersão e vamos falar de Dona Felipa.
Ela era uma das mais antigas rendeiras de nossa fazenda. Morava numa casa de taipa, num pedacinho de terra cedido por meu pai. Era lá no alto, perto do Tanque Grande, um pouco longe de nossa casa. Ninguém sabe, ao certo, com quantos filhos, ela e seu Canuto chegaram às nossas terras nem quantos negros fortes e retintos nasceram depois em sua cama de varas. Só sei que eram tantos, que ela mesma perdia as contas. Dona Felipa – todos diziam – era louca. Devia ser essa a razão do meu interesse especial por ela. Dizem, por aí, que as crianças e os loucos muito se parecem e, por isso mesmo, muito se entendem.
Lembro-me de que costumava chegar a nossa casa depois do almoço, mas se o marido vinha junto, chegavam à boquinha da noite e ficavam até tarde. Dona Felipa, ligeira e espevitada, vinha à frente; seu Canuto atrás, arrastando a alpercata de sola, sereno e altivo como um senhor das savanas. Sentavam-se no avarandado junto com meus pais. Ele, no banco com o patrão, deixava o cachimbo no bolso e fumava os cigarros de palha que eles preparavam, picando o fumo de corda bem miudinho e enrolando num pedaço de palha, claro e macio, como um retalho de linho. Os dois fumavam, e a conversa ia evoluindo nas ondas da fumaça perfumada. Falavam da lida da fazenda: cerca quebrada, burrego enjeitado, plantio de capim, capinação de feijão e todo tipo de assunto da roça. A mulher, de cócoras, junto do banco de minha mãe, pitava o cachimbo  asescutando a conversa dos homens, enquanto o escuro chegava de mansinho, e a lua reinava no céu. Eu, menina de poucos anos, sentada no banco das mulheres, observava tudo ao redor e ia guardando os sons da noite e os cheiros do mato, que imantariam cada causo e cada pessoa daqueles tempos, eternos, em minha lembrança. Eu já trazia em mim, o gosto de observar as pessoas, por isso posso lhes descrever a pessoa de Dona Felipa, não sei se fielmente, mas como a carrego no baú.
Felipa Doida era uma negra cor de formiga, baixinha e gorducha. Tinha o cabelo vermelho, foveiro, como diziam na roça, já começando a embranquecer. Costumava usar um penteado de criança: o cabelo enrolado em montinhos amarrados com cordão de embrulho. Mas, se fosse fazer visita, usava um lenço branco meio encardido; estando a trabalho, botava o velho chapéu de palha para proteger-se do sol. Fumava cachimbo, tibero, em nossa região; tinha lábios grossos, divididos de um lado por causa do cachimbo que, conforme o ditado, "deixa a boca torta". Posso vê-la chegando a nossa casa com o chapelão de palha, o vestido de chita e o bocapiu de milho, a anunciar-se pela risada e pelo grito de “Ó de casa, cumade Lesinha!” Minha mãe, dona Lindinha, respondia da cozinha: “Entre cumade, Filipa, deixe de cerimônia.”
Ela entrava, oferecia os milhos verdes, depois, puxava um corte de chita ou de um tecido xadrez, chamado bulgariana e entregava à costureira. Lembro-me de que a paixão por roupas era uma de suas excentricidades. Minha mãe e minhas irmãs eram suas costureiras. Dona Felipa dizia o modelo, combinava o preço e passava o resto da tarde contando causos salpicados de ditados e risadas.
No dia marcado, recebia o vestido, elogiava, agradecia e voltava para casa entonando a roupa nova; a outra ia numa trouxinha, embaixo do braço. Saía saltitando de alegria, mas, passados dois ou três dias, a velha voltava ressabiada.
Chegava, sem se anunciar - com arzinho escabreado - pitando o tibero. Vinha com o mesmo vestido – todo remodelado. Horroroso - diziam minhas irmãs; uma lindeza, pensava eu. Lembro-me bem da frase com que a costureira, ofendida, recebia a coitada: “A senhora botou o vestido a perder!” E começava a mostrar-lhe os defeitos: a saia estava curta demais; tinha várias pontas; o decote ficara enorme; as cavas das mangas desajeitadas; a barra franzida. Estava tudo um horror. O vestido está perdiiido, uma porcaria – dizia a costureira, zangada.
Quando outra pessoa, tentando acalmar os ânimos, lhe perguntava por que bulira no vestido novo para estragar daquele jeito, ela respondia – agora com certa empáfia – soltando a fumaça do cachimbo pela boca torta: "A cumade fez meu vistido feio, botô a perdê, entonce, eu arresorvi consertá pra ficá mai bunito." Não adiantava debocharem nem insistirem nos defeitos, ela não ligava. Por vingança, a costureira da vez, jurava que nunca mais lhe faria outra roupa. Dona Felipa dava de ombros como se dissese "nem tchum". Mudava de costureira. Outra irmã, depois de muita adulação e elogio, fazia o próximo vestido.
Nesse assunto de roupa, minha mãe complementou o causo com a informação de que a comadre Felipa não tinha agulha de costura, nem linha ou tesoura, mas costurava assim mesmo. Cortava o vestido com a faca de cozinha; fiava um pouco do algodão, que ela mesma plantava no quintal, e fazia um pequeno novelo de linha; depois, sentava na esteira e costurava o novo modelo com uma agulha bem grossa, a suvela, que seu Canuto usava para costurar couro.
 Nesse ponto, para prestigiar minha mãe, pedi que contasse o causo da vaca parida.  Dona Lindinha, com setenta anos, assumiu o papel de narradora e contou os tantos e entretantos, na sua fala de mulher de poucas letras.
- Cumade Filipa era doida. Nunca lhe entreguei menino novo pra olhar nem roupa branca para alvejar. Um dia, bem no empino de meio-dia, ela chegou quase nua, com a boca no mundo e a saia na cabeça. Pensei que tinha endoidado de vez. A maluca véa tava sem chapéu, com o cabelo assanhado como uma casa de arapuá. Mandei abaixar o vestido e a combinação, tomasse juízo que tinha home em casa. Ela entrou porta a dentro, vermelha como uma galinha de pescoço pelado, coçano as pernas e se explicano. Tinha sido o diabo daquela vaca pegadeira! Ela evinha passano desincramada, quando encontrou o bezerro novinho. Tratou de apertar o passo, mas a vaca apareceu da moita de capim, enfezada feito uma onça. Na fuga, pernas pra que te quero, e a vaca babano, pega aqui, pega acolá – a coitada caiu numa moita de cansanção. Eu e as menina se rimo da maluca. “Quem mandou a senhora ser lerda e passar, com a cara pra cima, perto de uma vaca parida?! Não sabe que Mimosa de mimo só tem o nome? Quando dá cria, nem Prino pode com a valentia dela!” Cumade Filipa passou o resto da tarde deitada no avarandado dos fundo da casa, pra se refrescar na frieza do piso de cimento. Até dei um pedaço de fumo de meu marido Prino pra ela fazer um cigarro; a coitada tinha perdido o tibero junto com a percata e o chapéu.
Para fechar o assunto, com chave de ouro, a experiente narradora contou o causo das batatas, animada pelas risadas de Lúcia e pelo café com bolo, que a dona da casa mandou servir, desculpando-se por não ter nem requeijão nem batata doce.
 - Olha, meninas, esse caso aconteceu com Elza de Dirizui, que também batizou um menino de Filipa. Um dia de domingo, ela foi fazer uma visita, toda cheia das cerimônias, com um presente para a professora Elza. Acho que era adulação pra vê se Elza costurava outro vestido depois que ela remodelou um vestido trabalhoso e desgraçou todo. Mas, nos tempo de fartura, ela tinha esse costume de dar um agrado. Podia ser um cozinhado de feijão, uns maxixes, umas espigas de milho ou umas batatas. Elza contou que ela foi chegano, toda suada, e lhe entregano o presente. Depois se desculpou pela embalagem, assim como quem está escabriada. Elza, desconfiada, olhou o saco branquinho e não viu nada de errado. Mas, assim que desatou o nó do cordão, percebeu que o saco era uma calçola. Filipa tinha chegado na cozinha segurando o fundilho como alça, e a calçola de morim parecia um saco. A danada explicou - pitando o tibero - que já havia colhido as batatas quando se lembrou do saco. Então, o jeito foi amarrar o cordão da cintura e botar as batatas dentro. Se a cumade Elza tivesse nojo, era só dicascar antes de botar no fogo!
Aqui em casa, às vezes, me chamam de Dona Felipa, Maria Felipa ou Felipa Doida. Eu não ligo e, até, gosto da comparação. Costuro minhas roupas, sempre de modelos inusitados, reformo e, de vez em quando, a costura ou o conserto não dá certo. Assim que reconheço o desastre, começam as gozações e, logo, uma irmã fala que foi uma “felipice” Eu, muito exigente com o acabamento e o caimento da roupa, não uso uma roupa perdida de jeito nenhum, mas dou de presente a alguém que caia de amores por ela. Esse prazer (ou doidice) em comum, só aumenta minha estima por Dona Felipa!
A vocês, que escutaram nossas vozes, eu agradeço de coração, e se tiverem gostado da prosa, Dona Felipa está por aí, pitando o cachimbo, toda cheia de si, ainda mais contente do que eu.

(abril de 1998)

sábado, 3 de março de 2012

NAS VEREDAS DO SERTÃO: IMPRESSÕES DE LEITURA

 

NAS VEREDAS DO SERTÃO: IMPRESSÕES DE LEITURA

VIAJANDO COM ALEILTON FONSECA



Comecei a leitura do livro “O desterro dos mortos”, assim que me despedi do autor, enquanto procurava a sombra de uma árvore, no campus da UEFS. Comecei pela contra capa e fui, logo, fisgada pela estranheza da frase inicial do terceiro parágrafo: “O rapaz tentou feri-lo com a ponta seca do silêncio, mas não conseguiu sustentar o duelo”.  Mas, só fui puxada para dentro do livro, ao ler a frase: “ Eu lhe dava aquele ramo de rosas vermelhas, com todos os espinhos que carreguei por todos esses anos.”  Era o rapaz respondendo à pergunta do velho sobre o que faria se soubesse quem era seu pai. Parei, aspirando a brisa da tarde e a poesia daquela frase. Reli todo o trecho da contra capa, tentando apreender-lhe a essência, o significado... Folheei o livro e li um trecho de cada conto, até a página quarenta e cinco, onde percebo, no primeiro parágrafo, que seu personagem é um menino sem pai. Continuei lendo um trecho aqui, outro acolá, até a página 54. Ali estava o que fora reproduzido na contracapa. Era aquele o conto.
Comecei de seu belo título “Para Sempre” e segui – guiada pelo foco suave da lanterna do narrador – a busca do rapaz à procura de seu pai e de sua história, onde a morte se apresenta, logo no início, levando sua mãe e deixando-o órfão para empreender a jornada ao encontro de seu pai e de outras mortes. Somente no final, quando ele deposita as rosas no túmulo dos pais, é que obtive a compreensão preciosa do que significava ele dar um ramo de rosas, com os espinhos que trazia na alma. Ao depositar as rosas, o rapaz pode abrir mão da morte que trazia dentro de si. Suas feridas se fecham , ele renasce, torna-se homem, e uma nova etapa de sua vida se inicia.
Daqui, resolvo que vou empreender a viagem proposta por Aleilton Fonseca. Vou voltar da página 55 e começar do início. Vou caminhar com ele por essas veredas do sertão. Vamos viajar a pé, a cavalo, de ônibus, no lombo dos bois ou de canoa, de carrinho de mão, do jeito que der. Mas não vamos somente nós dois, autor e leitora, não. A Morte viajará conosco.  Aleilton me avisou desde a estação de partida. Ali tem um letreiro dizendo o destino: “O desterro dos mortos”.
Nosso próximo destino é a casa de uma senhora octogenária que vai contar a ele uns causos das passagens de “Nhô Guimarães”. Vamos a cavalo porque a casinha fica lá onde o vento faz a curva. Aleilton vai tomar nota de tudo, e eu vou ficar de “butuca só assuntando as prosa”. Vou me sentar bem longe de Dona Morte porque ainda não tenho intimidade com essa senhora.
Aguardem o meu retorno.



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

FITAS VERDES X FITAS VERMELHAS


Era o ano de 1969. Eu cursava a terceira série do antigo Curso Primário e era uma das primeiras alunas da classe. Minha jovem professora, de vez em quando, nos surpreendia com uma inovação pedagógica. Daquela vez, anunciou que faria um debate. Quando ela explicou o que era um debate, a turma ficou entusiasmada, mas logo veio a decepção: nossos opositores seriam os alunos da quinta série. Ficamos amedrontados; um aluno mais atrevido argumentou que eram duas séries de diferença; outro vaticinou que seríamos massacrados pelos sabichões. Não adiantou. Tivemos de aceitar porque – naquele tempo – aluno não discutia as determinações do professor, apenas obedecia. O assunto do debate seria a primeira viagem do homem à Lua. Isso, segundo a professora, nos colocava em pé de igualdade com os alunos da quinta série; todos teriam que buscar informações do mesmo modo. Para piorar, o local escolhido foi a sala de nossos oponentes. A professora nos deu oito dias para nos prepararmos, o tempo de duração da viagem espacial, e mais vinte e quatro horas para lermos os jornais do dia seguinte. Portanto, a contagem regressiva começou no dia dezesseis de julho, quando a nave partiu da plataforma de lançamento do Kennedy Space Center, no estado da Flórida e só terminaria um dia após a aterrissagem da Apolo 11.
Naqueles dias, a escola inteira ficou agitada porque, além de nós, outras turmas fariam debates. Foram dias de angústia para mim que, nos intervalos, assistia às discussões de meus colegas, tolhida pela timidez, sem coragem de participar da conversa. Eles sabiam um monte de coisas e pronunciavam com desenvoltura os nomes esquisitos dos astronautas americanos: Armstrong, Collins, e Andrews. Aquela língua difícil e enrolada era um tal de inglês. Não tinha coragem de confessar que em minha casa não havia jornais, nem revistas e muito menos televisão, um luxo acessível apenas a alguns alunos privilegiados. Possuíamos apenas um rádio antigo e pesadão. Era o velhote que me transmitia músicas, novelas, contos de fadas e recortes do mundo real – estes sempre complicados demais para mim. E era ele que, entre um pipoco e outro, bradava em meus ouvidos aquelas palavras estranhas e belas: astronauta, espaço sideral, módulo lunar, espaçonave, força gravitacional, estratosfera... Apolo 11. Eu ficava a repeti-las, fascinada pela sonoridade e pelo significado que apenas lhes adivinhava.
No dia vinte, um locutor amalucado anunciou que a Lua fora conquistada pelos americanos; os russos haviam sido derrotados na corrida espacial, e a balança da Guerra Fria (Sei lá o que era.) pendia a favor dos norte-americanos; no “solo lunar”, tremulava uma bandeira azul, vermelha e branca.
Fiquei boba com essa notícia; nada daquilo fazia sentido para mim. A lua não era mais de São Jorge! Os americanos haviam derrotado o santo guerreiro! E agora, onde andaria o valente espadachim, expulso de seus domínios? Estaria cavalgando à toa pelo céu? E os dragões para onde iriam? Claro que a professora já havia explicado um monte de coisas sobre a lua: a Lua é satélite da terra; um corpo celeste sem luz própria (Que absurdo!) que reflete a luz do sol em sua superfície como um espelho; seu solo é um deserto, cheio de buracos e de crateras enormes... e não possui nada além disso. Tomei nota de tudo, li e decorei, mas não fiquei convencida. A lua, para mim, era algo bem diferente.
Nasci na roça e ali aprendi a contemplar a lua, a admirar sua beleza e a respeitá-la como algo sagrado, um pedaço do céu, uma possessão de Nosso Senhor Jesus Cristo que ele cedeu a São Jorge depois que o cavaleiro matou o Dragão de Sete Cabeças. Além de ser a morada do santo guerreiro e dos dragões, para o povo da roça a lua significava muitas outras coisas: a lua cheia era noite de lobisomem, noite de cantoria e de contação de histórias; a lua nova indicava que era chegada a hora dos nascimentos, hora de plantar o milho e o feijão; a lua crescente era propícia para cortar cabelo, deitar galinhas, arrancar mandioca; a lua minguante significava resguardo, cautela. Nessa lua, todos tinham receio de cortar cabelo, fazer plantação ou mesmo casar-se. Para as crianças como eu, a lua era uma companheira de brinquedos. Perdi a conta de quantas vezes apostamos corrida para ver quem chegava primeiro ao pé de baraúnas: as crianças na estradinha de chão, montadas no cavalo-de-pau; a lua no alto, montada nas nuvens. Ela sempre vencia a corrida, mas isso não importava porque o bom era voarmos juntos; ela no céu, e nós na imaginação.
No “Dia D” cheguei a simular um mal-estar para filar a aula (pela primeira vez). Porém, no ultimo instante, resolvi participar. Cheguei atrasada e tive que aterrissarar no território inimigo: a sala da quinta série..
Quando entrei, as tropas estavam enfileiradas frente a frente, separadas pela mesa das professoras e pelas cores das fitas no pescoço: a terceira série com as fitas verdes e a quinta série com as vermelhas. Recebi da professora um sorriso apressado, a título de incentivo, e uma fita verde. Sentei-me no fundo – quietinha – com as pernas tremendo e o estômago embrulhado.
O combate não demorou a começar.
Ao sinal do apito da professora, os alunos começaram a se engalfinhar fazendo e respondendo perguntas; cada qual mais preparado; alguns municiados com fotos recortadas de jornais e revistas; outros descrevendo as cenas incríveis vistas na televisão. As mestras, empunhando suas canetas letais, anotavam a participação de cada aluno. Eu, no meio do grupinho mudo, percebia o olhar inquisidor de minha professora a exigir minha participação.
Na verdade, sabia a resposta de algumas perguntas; o que me faltava era coragem para me levantar e responder: “Deram o nome de Mar da Tranqüilidade ; Foi no Oceano Pacífico; Houve um atraso de trinta segundos; Pousou às doze horas e cinqüenta e seis minutos...”
No final, os fitas vermelhas venceram e ficaram comemorando na sala, enquanto os fitas verdes saiam reclamando da superioridade do adversário: duas séries à frente e maior poder aquisitivo dos filhinhos-de-papai que possuíam tevê e compravam revistas. No grupo dos verdes, só alguns assistiam “televisinho”; a maioria não conhecia o caro e fascinante aparelho que, na definição de meu pai, era “um rádio com uma tela brilhosa mostrando fotografias em movimento”.
No rabo da fila, saí de cabeça baixa, mas a professora me chamou e me  esculachou de tabaroa e bicho do mato. Será que não lera um jornal ou uma revista? Era impossível que nada soubesse sobre a viagem do homem à Lua! Aquilo era muita falta de interesse! Por fim, anunciou o esperado e temido veredicto: NOTA ZERO.
Com essa nota “manchando” meu currículo, achei que a possibilidade de pular a quarta série e passar direto para a quinta, conforme a diretora havia conversado com meus pais, havia virado um sonho distante.
Porém a tal nota ruim misturou-se às outras, e aquele ano letivo teve um final feliz: fui aprovada para a quinta série junto com outros quatro colegas.

                                                                       (maio de 2008)