domingo, 16 de dezembro de 2012

PEDRA SÓ: ABRIGO E SANTUÁRIO



         

        
 PEDRA SÓ: ABRIGO E SANTUÁRIO
                                                           Ana Maria Rosa

                                                           

“Percebo que, em toda criação artística, se insinua uma infância única e intransferível”.
Bartolomeu Campos de Queirós

O livro Pedra Só, desde sua capa, uma bela fotografia de Ricardo Prado, fornece ao leitor, mesmo ao mais desavisado, uma deixa de que o poeta José Inácio Vieira de Melo pretende conduzi-lo às terras agrestes do Sertão – seja esse dentro ou fora – pois, ali, estão seus signos: o mandacaru, o espinheiro e a lua cheia. Na folha de rosto, eis o lajedo: a pedra em sua solidão imemorial. Depois do belíssimo poema-epígrafe de Roberval Pereyr – povoado de camelos e cavalos – o poeta JIVM nos abre um portal, de onde se descortina a sede da fazenda Pedra Só, obumbrada pelo lajedo negro que se projeta sob o céu sem nuvens, e, ali mesmo, nos adverte fazendo suas as palavras do poeta Geraldo Mello Mourão: “Essas terras são minhas/ sobre elas hei lavrado a escritura de meu canto”. Avisado pela epígrafe e ofuscado pela claridade do céu, o leitor-viajante-convidado começa a pisar o couro do país, onde reina o Cavaleiro de Fogo.
 Entrar nesse misterioso território é adentrar “nos emaranhados da memória” de onde o poeta traz à luz, com seu verbo encantado, as origens de sua poesia telúrica, visceral e apaixonada. Porque esse é o tema principal do livro: a poesia, sua origem e suas fontes primevas. Chamo a atenção para o uso constante de palavras que remetem a início, primordial, fundamental, em construções como “o nome primeiro à luz do sol”, “O sertão encourando os primeiros saberes”, “E na penumbra, as primitivas galas”, “No Sertão, o princípio do enigma”, “Na Pedra Só, a fonte desse poema” Esses “versos sertânicos” não deixam dúvida de que o poeta precisou buscar “Outra vez as águas antigas,/ravinas na memória do tabuleiro” e retornar à “província sagrada” para escutar o “boi das algorabeiras/ que muge a solidão” e, assim, poder revelar os segredos fundamentais de sua lírica que estão codificados em seus poemas. Adiante, nova revelação descortina-se ao leitor, quando o poeta se define afirmado nos últimos versos do cântico II: “E eu regresso e lembro que fui, que sou e serei: um cavaleiro cozido nas brasas do Sertão,/dentro dos couros, com o sol no espinhaço,/ no meio do tempo, no meio dos tempos”.
Não é difícil ao leitor, que como eu, traz no âmago do Ser, os sons, os sabores e perfumes do Sertão, ouvir o aboio, atender ao chamado do poeta e acompanhá-lo por esse sertão de terra vermelha, povoado de bois-onças-pássaros-leopardos-cantadores-profetas-vaqueiros-cavalos e éguas. Às vezes, eu, leitora, sou ferida por um espinho de mandacaru ou perco-me no labirinto de minha própria memória (Não se lê poesia impunemente.) noutras, refresco-me à sombra das algarobeiras e, dali, também posso contemplar “a paz dos lajedos e das serras”. Mas, mesmo para o leitor que não carrega consigo esses signos sertânicos, não é difícil empreender essa odisseia, guiado pelo som do galope do centauro que partiu do Olho d’água, apeou por uns tempos na fazenda Ribeira do Traipu, no sertão das Alagoas, levantou rancho para a cidade de Troia, passou por Ítaca e desembestou-se por desertos bíblicos até chegar à fazenda Cerca de Pedra, de onde empreendeu nova viagem, até alcançar as terras da fazenda Pedra Só, na Chapada Diamantina, sertão da Bahia. Ali, o vaqueiro fundou seu reino, o “país do couro”, onde o Cavaleiro de Fogo, finalmente, pode repousar e, como um demiurgo, criar delírios de metáforas, deslumbrado com a “chã que se abre” aos seus “olhos pasmos diante da imensidão do Cosmo”.
Mas, um outro aspecto me chamou a atenção: nesse livro, mais do que nos anteriores, é possível sentir a presença iniludível da infância a perpassar quase todos os cânticos do poema Pedra Só. Desde o início, percebo que, além do boi de campina, anda com o vaqueiro um menino moreno de cabeleira encaracolada e senho franzido. Ele está montado num cavalo em pelo e, protegido por “uma legião de vaqueiros e pelas sete peles do gibão de couro”, segue o outro que galopa, veloz, a chicotear o cavalo arisco. Qualquer leitor, informado de que JIVM é o cavaleiro de fogo, o centauro escarlate, o demiurgo, o poeta baiano das Alagoas, sabe que ele não careceria de tanta proteção, ao desembestar pelo sertão de dentro, se não fosse por causa do “menino todo diferente dos outros” que viaja com ele e do qual não pode apartar-se.
Ninguém consegue olvidar a infância e, talvez, nenhum outro artista além do poeta, consiga presentificá-la de forma tão bela.
Tenho certeza de que muito do que o poeta José Inácio vaticina é soprado aos seus ouvidos pelo menino, a criança que o habita e o preside. A criança é a essência do ser humano, a sua alma, o seu coração sagrado, a infância de que não se pode apartar, ainda que, em alguns momentos, seja difícil a ela retornar.
É isso. Nesse livro, José Inácio, corajosamente, acolhe a criança-menino-bezerro sem a qual sua arte não seria possível. Nesse sentido, o livro Pedra Só é prova inconteste de seu amudurecimento como poeta. Creio que sua poesia, as toadas e os aboios brotam de dentro dela e são cantados pelo poeta, primeiramente, para ela e, só então, são lançados nos espaços-tempos do Infinito, transmutados pela experiência e pelos saberes do homem-pai-amante-vaqueiro-poeta que José Inácio encarna.
E parece que, somente, na fazenda Pedra Sópela mágica da fantasia, transfigurada num reino encantado, chã, abrigo e santuário – José Inácio pode retornar ao paraíso perdido: o sertão mítico, território sagrado da sua infância, onde é possível a fusionar a trindade: homem-menino-poeta.
 Aqui, apeio do cavalo que me levou à beira da “inesgotável jazida”, onde quase vislumbrei o “rubi” que habita o poeta. E, ainda enredada nas infinitas teias orvalhadas das metáforas e dos signos míticos de Pedra Só, eu penso que, talvez, essa catedral seja simplesmente a infância e o rubi apenas o menino.




[i] Ana Maria Rosa é professora graduada em Língua Portuguesa e Literatura, publica crônicas e contos em revistas eletrônicas e no blog oolhardapequenaespiã.blogspot.com. Em setembro, terminou o primeiro livro de contos que está em fase de revisão.

Artigo publicado no Portal de Poesia Iberoamericana (http://www.antoniomiranda.com.br/index.html), editado por Antonio Miranda, poeta, escritor e artista plástico radicado em Brasília.

 Republicado no blog http://jivmcavaleirodefogo.blogspot.com.br/2012/11/pedra-so-abrigo-e-santuario.html

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

CRÔNICA DE UM TRIÂNGULO








Minha empregada é uma mulher de vinte quatro anos. Trabalha em minha casa três dias por semana. Vem de um distrito próximo, deixando os dois filhos, um menino de oito e uma menina de quatro anos, entregues cada qual aos cuidados de uma parenta. Chega às sete horas manhã, trazendo uma bolsa pesada com a roupa de trabalho, um sorriso alvíssimo e os olhos oblíquos iluminados pela força guerreira de seus ancestrais africanos.  Assim que entra, sua voz cheia preenche os espaços de silêncio com as novidades e causos acontecidos no distrito, e um vendaval de personagens invade todos os cômodos. Quando dou por mim, eles já se misturaram aos outros que circulam ao meu redor, envolvendo-me no redemoinho de suas vidas.
Hoje, mesmo antes de abrir-lhe o portão da garagem, pude ver que ela vinha diferente: a sombra do corvo estava vitrificada em seus olhos. No mesmo instante, adivinhei de que região pantanosa brotava aquela dor que encurvava seu porte altivo. Toda mulher reconhece quando a que está à sua frente abandonou o traçado do circulo para caminhar em linha reta, de um vértice a outro do triângulo. Passou por mim, como um espelho sem luz. Mais tarde, voltou, cabisbaixa, para me contar, com voz rouca de tanto chorar, que o marido arrumara outra mulher: uma prima de dezessete anos que estava esperando um filho dele.
Seu homem  semeara no ventre de outra mulher, o filho que estavam adiando para quando aumentassem a casa e ele arranjasse “um emprego de carteira assinada”.
          Vi-a lutando para conter o mar que marulhavam em seu peito e ameaçava derramar-se em ondas pelos frágeis diques oblíquos. Tive vontade de abraçá-la. A mulher balançou sob o impacto das próprias palavras, mas firmou as ancas poderosas pondo as mãos à cintura e despejou sobre mim uma avalanche de perguntas: Existe dor maior que a da traição? A senhora já foi traída? Como é que eu faço para remendar meu coração despedaçado feito vidro de para-brisa? Antes que eu me pronunciasse, começou a repetir-me as farpas que outras mulheres lhe atiraram ao rosto: Sabe o que minha mãe falou? “Eu lhe avisei que ele era um moleque, um vagabundo, mas você não quis saber de conselho de mãe e foi viver com ele, agora, aguente”! E a mãe dele?  “Você tem que se conformar porque, hoje em dia, é moda tudo que é homem tem duas mulher”! Ela me detesta porque tem ciúme do filho e nunca me aceitou porque tenho um filho de outro homem. Somente minha irmã foi leal. Todo mundo na rua sabia e ninguém me contava nada. Agora, quando eu passo, ficam cochichando. Na certa, dizem que sou uma idiota. Ajudei meu marido em tudo, até a moto ele conseguiu por minha causa, porque fui eu que pedi a uma amiga para tirar no nome dela. A senhora sabia que tinha vezes que o cachorro me pedia o dinheiro da gasolina? E eu, como uma besta, dava vinte reais para ele encher o tanque, sem saber que ia buscar e levar a prima na roça. O que mais me dói é que quando chego daqui e peço uma carona até em casa porque tou cansada, ele não me leva, não! Mas a outra andava na garupa dele pra cima e pra baixo! É muito desaforo! Se aquele cachorro entrasse em casa no dia em que minha irmã me contou a verdade, eu furava ele todinho de faca! O sabido chegou na porta, todo arisco: “Não vou entrar, não! Tu quer me matar e não adianta negar porque, mesmo de longe, tou vendo minha morte em teu olho.  Vou dormir em mainha que não sou peru pra morrer de véspera! Sei que a peixeira tá escondida em tua roupa”. Isso ela me confirma – sem hesitação – Hera jurando vinganças terríveis.
Confirmo-lhe que a traição do ser amado dói feito estocado de faca cega, mas não há como evitar seu golpe, porque a traição faz parte da vida. Toda mulher já foi ou será traída, por mais bonita e desejada que seja. Cito os exemplos da atriz e da princesa, belas mulheres, traídas por seus maridos e expostas na mídia, impiedosamente, em escala mundial.
À tardinha, antes de se despedir, ela me segreda que não sossegará enquanto não souber tudo que aconteceu entre o marido e a outra mulher. Pretende obrigá-lo a revelar-lhe os mínimos detalhes “de suas intimidade”. Peço-lhe que desista dessa confissão porque esse conhecimento tornará seu sofrimento inumerável, mas ela se mantem irredutível, os olhos a vislumbrar imagens confiscadas pelo monstro de olhos verdes.
Então, eu me calo, sem encontrar palavras para lhe dizer que o triângulo amoroso é um relacionamento entre três pessoas e que, aprisionada num dos vértices do triângulo, a pessoa traída passa a relacionar-se com o “a coisa possuída” pelo ser amado e a desejá-la, tomando-a, de certo modo, como amante. Isso está latente na obsessão que domina a mulher traída de saber tudo sobre a rival. Muitas passam a viver como voyeurs, aprisionadas num labirinto de vidro, proteção e vitrine, de onde acompanham passo a passo a vida da outra. Algumas chegam a exigir do companheiro a compartilhamento de detalhes íntimos do relacionamento sexual dos amantes. E o que mais pode ser essa loucura, senão o desejo de envolver-se nesse relacionamento que parece excluí-la? Quem de nós não conhece, na ficção e na não ficção, exemplos de triângulos amorosos em que o desejo latente da mulher ou do homem materializou-se sexualmente, passando o casal a dividir a mesma amante ou o mesmo amante? 
Como poderia explicar a ela que o triângulo amoroso possui um misterioso vórtice capaz de sugar com sua força magnética aqueles que dele se abeiram?

quarta-feira, 27 de junho de 2012

O FRUTO PROIBIDO




 Quando ela retornou à sala, o menino comia vorazmente. Escondia o alimento entre as mãos. O suco escorria-lhe pelos cantos da boca. Ao perceber o olhar guloso da menina, passou a comer com requintes de prazer: chupava, revirava os olhos, estalava a língua, sussurrava e lambia os beiços. Que fruta era aquela? Onde ele tinha achado? SAPOTI! No quintal da outra professora! Implorou por um pedacinho, só para experimentar. Não. Se quisesse, fosse procurar pelo chão ou jogasse pedras até derrubar um. Então era por isso que aquele moleque corria para o quintal assim que a professora dava o recreio da banca! As meninas iam brincar na praçinha da igreja e voltavam tristes de fome, enquanto o peste do gordo enchia a pança e voltava do recreio todo risonho e ainda mais pirracento.
Teve vontade de se vingar. Podia combinar com as outras de contarem tudo à dona da casa. Com certeza, a velha Catarina iria lhe passar uma descompostura terrível e exigir da sobrinha, a meiga professora, um bom castigo para o atrevido. Naquele tempo, derrubar fruta do quintal do vizinho era malinagem imperdoável ou até mesmo um furto. Chegou a imaginar a cena: dona Catarina escura de raiva, postura de general, dedo em riste a exigir explicações; e o moleque pálido, colado na parede, a papada tremendo, sem conseguir gaguejar uma desculpa. Por alguns segundos, ficou dividida entre os dois prazeres: a vingança ou o sapoti. O recreio estava quase terminando, o tempo urgia e o estômago exigia. Olhou o relógio da sala e pediu a Deus que a professora cochilasse um pouquinho além da meia hora habitual. Correu para o quintal. Procurou, procurou e nada. Não havia nenhuma fruta no chão. O jeito seria atirar pedras. Olhou para o alto e viu o sapotizeiro imenso – tão alto quanto as palmeiras da praça – carregado de frutos. Ela tinha pontaria péssima, nunca conseguiria derrubar um sapoti. Atirou pedras até ouvir o sininho da professora. Voltou de cabeça baixa para não ver a cara debochada do gordo.
Aquele fracasso se repetiu infinitamente: quando saiam juntos ao quintal, ele dizia que não tinha nenhum sapoti maduro; se saía primeiro, o gordo ficava terminando uma tarefa; se ia brincar na praça, o bandido fugia para os fundos e ainda lhe mostrava uma fruta escondida no bolso da calça. O pior era quando ele não tinha tempo de comer e passava o resto da tarde lhe fazendo figa: cada vez que a professora se ocupava com uma das meninas,  apontava o bolso ou lhe mostrava uma pontinha do sapoti. Ela ficava doida para falar dos sapotis com as colegas, mas desistia porque um movimento maior no quintal, chamaria a atenção de dona Catarina ou mesmo do pessoal vizinho.
Foi assim até o finalzinho da safra, quando teve uma ideia salvadora: Chegaria à banca mais cedo e encontraria um ou dois sapotis caídos no chão; talvez até mais, porque chovera pela manhã e era segunda feira.
Assim fez. Com meia hora de antecedência, foi recebida por dona Catarina que lhe mandou ir brincar nos fundos porque era cedo demais e  estava com uma visita na sala. A menina voou até o quintal com a boca cheia de saliva e o coração exultante. Olhou, olhou, esquadrinhou palmo a palmo e não encontrou nenhuma fruta, sequer uma estragada. Frustrada em seu desejo, tomou uma decisão da qual se arrependeria por toda a vida.
Empilhou uns tijolos, juntou dois caixotes, trepou no muro e pulou para o quintal vizinho. E que maravilha!  O chão sob a sapata estava coberto de folhas e de sapotis! Escolheu os maduros, encheu a saia do vestido e, radiante, correu para pular o muro. Só então percebeu que, daquele lado, o muro era bem mais alto. Ansiosa, começou a procurar algo que lhe facilitasse a subida: uma pedra, um toco de madeira, uma escada. Não encontrou nada. Nervosa, avistou umas cadeiras na varanda e correu para pegar uma. Foi, então, que a brincadeira acabou.
Havia uma pessoa caída no quintal Seu coração disparou, os ouvidos zumbiram, as frutas despencaram do colo. Ali, no meio do caminho, um pouco antes da varanda, uma menina jazia no chão. Viu o vestido branco meio suspenso, as pernas abertas, o cabelo desalinhado, o rosto arroxeado e sujo de vômito. A menina estava morta. Era Valdirene, a filha da vizinha. Tentou gritar, não conseguiu. Ficou paralisada, mas de algum modo, suas pernas adentraram a casa deserta e chegaram ao quarto da mãe. Com um fiapo de voz, acordou a mulher e lhe falou da filha caída no quintal.  
Em poucos instantes, os gritos da mãe fizeram toda a vizinhança acorrer ao quintal. Angélica escapou pela porta da frente e fugiu para casa. Escapou, mas levou consigo uma fotografia daquele quintal: o muro sem reboco, a árvore imensa, a terra molhada, as folhas caídas, os sapotis esparramados no chão, a menina morta e a mãe agarrada ao corpo da filha uivando...uivando.
Só algum tempo depois, escutando um comentário aqui, um cochicho ali, ficou sabendo que a menina havia morrido envenenada. Uns diziam que Valdirene havia comido batata com leite no café da manhã, outros que merendara manga depois de tomar leite, e alguns sussurravam que a madrasta lhe oferecera um pedaço de bolo envenenado. A bruxa morava na casa vizinha e teria lhe entregado o bolo por cima do muro. Diziam que a viúva não queria repartir com a enteada a pequena fortuna que o marido deixara. Não achava justo com seus dois filhos que a bastardinha herdasse alguma coisa.
O caso foi abafado, e a verdade, que só o imenso sapotizeiro testemunhou, nunca veio à tona.
O tempo passou, a menina mudou de cidade, entrou na faculdade, tornou-se professora. Cresceu sem nunca experimentar um sapoti. De vez em quando, era tentada por um cesto cheio numa banca de frutas: parava, olhava e seguia em frente.
Um dia, uma colega lhe presenteou com uma sacola cheia de frutas.    Disse-lhe que era a fruta mais deliciosa do mundo e exigiu que comesse uma, ali mesmo, na sala dos professores. Angélica tirou um pedaço do pequeno fruto cor-de-terra. Mastigou lentamente. Engulhou. A fruta era doce demais; a polpa crespa e arenosa dava uma agonia na ponta da língua. Como era enjoado o sapoti! Que decepção!


Ana Maria Rosa (2011)

sexta-feira, 1 de junho de 2012

DÈJÁVU








Ia passando por uma rua próxima, quando sentiu o desejo irresistível de rever aquela casa. Parou o carro e deixou que suas pernas a levassem à rua das mangueiras. Era melhor voltar – uma mulher de trinta anos parecendo uma adolescente – iria apenas passar como quem não quer nada, só para dar uma olhada. De longe, avistou a casa amarela. Parou tentando recuperar a respiração. Ainda havia tempo de voltar. Seu corpo impulsionou-se até o número 25. Quedou-se observando: a fachada imponente, a porta entalhada, o muro de pedra, o jardim de rosas, a grade alta...  Em que momento tudo se acabara? Antes, entrava sem se anunciar, agora não podia sequer tocar a campainha. Precisava desistir. Dobrou a esquina e viu o portãozinho do quintal, aberto. Olhou para os lados e entrou.
 Experimentou o trinco da porta da cozinha. Arrodeou a casa, viu uma janela aberta. Volte, Marina, volte... Escutou o silêncio da casa, o coração aos pulos. Estava louca. Uma mulher casada com um deputado, mãe de dois filhos – escondida – espreitando o interior de uma casa!  Assomou a cabeça à janela e viu a sala de jantar parada no tempo: a mesa grande, as cadeiras de veludo verde, os quadros, o lustre. Apenas as cortinas eram novas – cor de vinho. Mulherzinha de mau gosto! Fechou os olhos, calculou a altura da janela – como da primeira vez que dormira com ele – agarrou-se ao parapeito e pulou.
Ouviu o chuveiro e a voz dele vinda de longe – Quem é?
Entrou no quarto, escondeu-se atrás da cortina, ficou a espiá-lo – belo e viril – enxugando o cabelo. Ouviu a ordem – Marina, saia daí!
Marina fundiu-se ao corpo nu. Sentiu uma mistura de prazer, felicidade e dor. Teve medo de estar sonhando novamente. Desejou morrer: não queria acordar em sua casa, na cama ao lado do marido.






















                                                      

terça-feira, 22 de maio de 2012

DISCURSO DE FORMATURA

Discurso da Oradora
Lua Marina Moreira Guimarães
Direito UEFS 2011.2

Magnífico Reitor da UEFS, Prof. José Carlos Barreto de Santana, em nome de quem cumprimento todos os demais membros da mesa; professores homenageados; pais, mães, familiares, amigos, companheiras, e a todas e todos os presentes, boa noite.
Estou aqui hoje porque a palavra me foi entregue. Nesse instante, tenho a tarefa de proferi-la, enquanto estudante de Direito e mulher. Eu sou a primeira mulher a ocupar este lugar na qualidade de oradora de uma turma de Direito. Mas eu só posso fazê-lo na condição de poeta, que não escreve poemas, mas compreende que é preciso estar constantemente dominada pela paixão, e que a linguagem mais compreensível às pessoas é a que lhes atinge direto no diafragma, sem intermédio de sinapses. A poesia transmite valores porque transmite emoções. Ela é essencialmente marginal, e também sofre a exclusão, como tudo que é inútil ao mecanismo da produção de riquezas. É assim que me revisto da mágica encantatória de fazedora de palavras, para em prosa mesmo, recitar os versos dos meus companheiros e companheiras. E para trazer as boas novas: seremos humanos.
Há tanta solidão por aí, tantos sonhos desfeitos, ausência de sentido e de alternativa para esse modo de vida desagregador, que nos sentimos encurralados, e a reação possível é quedar-se atônito. Não podemos escapar à angústia do tédio e da fluidez das relações. Para onde nos movimentamos? O futuro melhor é uma metáfora, os ideais de igualdade, liberdade e justiça foram profanados e falar deles é obsceno.
Então, o que nos espera? É muito difícil viver na desesperança. É preciso acreditar no que não existe, afinal, estar nesse mundo é conviver com ausências. A ausência é o desconforto, é o vazio deixado
por uma presença ressentida. Não podemos deixar de sentir essa angústia fundamental, de saber que há muito mais lá fora do que nossos olhos conseguem captar nesse momento. Não estamos cegos, é que os olhos não chegam para dar conta dos problemas reais. Precisamos recuperar a dignidade dos outros sentidos no aprendizado da vida. Abrir os ouvidos, o nariz, a língua, o corpo, ao arrepio da experiência é o começo da libertação da clausura da modernidade. É aceitar a emoção, o sentimento, como parte fundamental da compreensão de nós mesmos e do outro.
Ausente é tudo que não está aqui, que não é agora, que não mora, que não possui, e que não morre. Havemos de desvelar as ausências do Direito, e a sua inescapável qualidade de incompletude, como tudo em nosso tempo.
Muitos preferem acreditar que o Direito é um todo hermético. Sua influência, imagina-se, afeta todos os aspectos da vida humana, nos governa onipresentemente, e as suas soluções poderiam resolver todos os problemas. Mas o que há, de fato, é um sistema que regulamenta algumas situações, um conjunto de elementos normativos que tenta prever apenas alguns fatos, e dar uma resposta possível aos conflitos.
Há muito mais acontecendo à nossa volta do que o Direito jamais será capaz de dar conta. E nem é desejável que consiga. Para além do controle jurídico, as pessoas criam outras maneiras de organização e de convivência, que o nosso dogmatismo, o estreito molde em que as leis e os litígios são criados, não tem condições de compreender. E são nesses lugares, em que o Direito é comumente tão prescindível, onde surge a novidade e a esperança.
O Direito parece ser o lugar das ausências. As formas de vida resistentes ao avanço do retrocesso do projeto hegemônico de mundo, estão ausentes, não conseguem se fazer ouvir dentro do mundo
jurídico, pois a língua que falamos não lhes é acessível. Na voz que profere o Direito, não ouvimos o grito dos miseráveis, dos sujeitos organizados para resistir às várias formas de opressão; não percebemos o vigor das enxadas sulcando a terra seca, tão seca como desde 1982 não se via; não sentimos a respiração entrecortada das mulheres que abortam em risco de morte; ou a mãe periférica que pranteia o extermínio de seu menino que nem chegou a ser homem; não podemos ver os confrontos em que a sociedade se sustenta e estremece, e para cuja pacificação, as leis dizem ser feitas.
Precisamos ter em mente que nosso trabalho não é a mola do mundo, mas o poder conferido pelo domínio desse instrumento não é fictício. O Direito é a linguagem do poder político e reflete os objetivos e a conduta de quem são seus detentores. Nós não somos os donos do poder, nem tampouco devemos ser as engrenagens que garantem obedientemente sua reprodução. Devemos ser os operários da rebeldia, e dia-a-dia executar a jornada da revolta contra a dominação.
É preciso resistir às decisões jurídicas supostamente neutras, reconhecer o conteúdo político e valorativo dos nossos atos. É preciso resistir às práticas solidárias, cujo intento é manter a dependência dos sujeitos e grupos oprimidos. É preciso humanizar o Direito, retirá-lo de seu sonho de segurança jurídica para que escute os gritos detrás dos muros. O Direito exclui, a educação jurídica exclui, o poder exclui a riqueza da vida humana. Cria um ambiente acético, onde nós, futuros profissionais, devemos nos movimentar. Mas nós não somos estéreis, e se sabemos onde está a corrente da mudança, é para lá que devemos migrar. Vamos lavrar e semear na aridez dos cubículos normativos, vamos fazer chover a esperança com a nossa utopia.
Que não sejamos homens partidos, que estejamos inteiramente aqui, com nossas lonas pretas e indignação fundamental, para a ocupação da universidade. Inteiros para a construção de uma educação jurídica capaz de produzir presenças e não mais escamotear ausências. É preciso reconhecer os vazios históricos e transbordá-los de novidades. É preciso entranhar, pela pedra, a vontade do corpo, da alma, do coração, porque essa é a matéria humana.
Esse encontro nosso, durante esses cinco anos, essas pessoas, neste lugar, neste tempo, foi importante para que acreditássemos que, sim, o aprendizado dogmático do Direito é necessário, mas o aprendizado amoroso do Direito pode ser revolucionário. O amor como a desrazão que leva à transgressão, o amor que nos faz recuperar a visão, tomada pela cegueira leitosa das crenças do racionalismo. Talvez, melhor e mais importante do que o exercício competente da profissão, seja o trabalho poético do exercício apaixonado da profissão. Como não ver, por exemplo, a poesia no trabalho do juiz que manda soltar o ladrão das melancias, recusando-se a justificar seu ato, pela obviedade do sentimento de compreensão do desespero faminto do homem. E vejam a poesia do jurista Warat, que viveu sempre em estado de ardente emoção, “Só os apaixonados contestam, protestam, procuram a transformação. As paixões não cegam; elas iluminam, utopicamente, o destino do ser apaixonado. A paixão é o alimento da liberdade. Não pode, portanto, existir pragmática da singularidade humana, sem seres apaixonados que a realizem. A paixão é o que nos diferencia dos seres inanimados, que simulam viver olhando, indiferentemente, o mundo à espera da morte. Só os seres apaixonados têm condições de procurar viver em liberdade...”
A ausência de paixão nos lança no vazio da mera sobrevivência material, do abandono do espírito. No centro da pragmática rotina institucional, oficial, judicial, dos rituais, dos favores, da repetição, da frieza, do torpor, experimentamos uma existência prosaica e, portanto pobre. Uma existência poética, pelo contrário, é aceitar viver para viver, é estar presente nos espaços para queimar o tédio e a conformidade, e com as cinzas das horas, dar origem à estrela da manhã. Sem isso, estaremos perdidos na mesmice.
Como Drummond, “Estou presa à vida e olho meus companheiros./ Estão taciturnos, mas nutrem grandes esperanças.” Precisamos é de paixão, companheiros, de fogo no olho, corpo em carne viva de tanto debater-se pela liberdade, e na luta para seduzir os outros para essa tarefa comum.
Eduardo Galeano é quem conta uma história sobre fogo. Diz ele que:
“Um homem conseguiu subir aos céus.
Quando voltou, contou. Disse que tinha contemplado, lá do alto, a vida humana.
E disse que somos um mar de fogueirinhas.
- O mundo é isso – revelou. – Um montão de gente, um mar de fogueirinhas.
Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras.
Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores.
Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas.
Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam, mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto, pega fogo.”
Olho para nós, formandos do curso de Direito, e vejo um bocado de fogueirinhas, e estão vivendo em meu peito. Espero que sejamos para sempre fogos de alumiar com ternura e queimar com ardor, pra que quem for à lua, possa ver nosso brilho de lá.

Obrigada.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

FILHA DIPLOMADA: HOMENAGEM A UM SERTANEJO



Hoje é dia 17 de maio de 2012. Contagem regressiva: faltam dois dias para a colação de grau de minha filha Lua Marina . A família Rosa Moreira está se preparando para uma grande festa com roupa de seda, terno preto e banda de música. É justo que seja assim: ela será a segunda (a primeira sou eu) a concluir a graduação de nível superior. Receberá o diploma do curso de Direito da UEFS. Será advogada, “doutora adevogada” como diria meu pai, Plinio da Matinha. É dele que quero falar nesse texto.
Meu pai, se fosse vivo, estaria cheio de orgulho da formatura dessa neta e se sentiria recompensado por sua decisão de mudar-se do campo para a cidade, a fim de “dar estudo” aos filhos mais novos. Há quarenta e sete anos, ele e minha mãe deixaram a fazenda Matinha, grande e bem cuidada, e migraram para a cidade de Santo Estevão, a uns duzentos e poucos quilômetros de Salvador, com o sonho de ver a família progredir através das letras. Matriculou a filharada na escola e descansou o coração. Muitos Moreiras desviaram-se do caminho, mas alguns estão retornando, e outros ( netos e bisnetos) estão em faculdades ou começando os estudos. Vem muito doutor Moreira por aí, como seu Plínio sonhou.
Criei minha filha falando desse avô sertanejo, que ela não chegou a conhecer, mas de quem tem uma imagem forjada a partir de minhas contações de histórias da família. Aprendeu a admirar o homem que começou a vida como tropeiro, aos doze anos de idade, vendendo farinha no lombo do burro por todo o recôncavo baiano, até tornar-se proprietário de uma grande fazenda e próspero criador de gado. Ainda ontem, à noite, eu lhe contei de suas andanças pelos Gerais onde comprava gado: Numa madrugada, ele partia dirigindo o Jeep verde e, numa tarde, depois de trinta dias ou mais de ausência, ouvíamos a buzina do carro e começávamos a gritar “Pai evenhe, pai evenhe ...” até que  avistávamos o bravo jeepinho – agora vermelho – coberto de poeira das terras do Sertão Alto. Dele, saltava o motorista queimado de sol - marrom avermelhado dos pés ao chapéu panamá – os braços abertos, os olhos cheios de lonjuras e a voz rouca de causos que contaria na beira da fogueira. Alguns dias depois, o som do berrante anunciava a chegada da boiada, e meu pai corria para o avarandado com os olhos brilhando. Não demorava muito, avistávamos uma nuvem de poeira e, dali a pouco, um mundaréu de bichos invadia a malhada, e a fazenda se enchia de sons e de cheiros. Os homens encourados arranchavam na malhada, acendiam a fogueira e passavam a noite relatando ao patrão os percalços da viagem entremeados de histórias de assombração.
 Dessas viagens, trago na lembrança, nomes e imagens de terras longínquas onde nunca estive e um Sertão que mora aqui dentro, imantado de cores terrosas, sons de berrante e cheiro de estrume. Desse pai, carrego em minhas entranhas, valores inquebrantáveis: honestidade, senso de justiça, respeito à vida e apreço ao trabalho. Foi com esses valores que eduquei minha única filha, untando-os com a doçura do amor e colorindo-os com os tons da liberdade. O resultado está aí: uma águia fêmea que se lança no espaço, conduzida pelos ventos da liberdade. Lua Marina pertence a uma geração que acredita  poder mudar o mundo. É, muitos jovens de agora, voltaram a sonhar com a justiça social – velho sonho esquecido por minha geração que cresceu sob o manto negro da Ditadura. Lua pretende tomar para si, a causa do Direito dos fracos e desvalidos. Difícil caminho, perigosos atalhos, penhascos abruptos.
Em que momento a garota com nome de artista resolveu embrenhar-se na seara (devia ser Saara) do Direito?
 Parece que passou tão pouco tempo desde que minha garotinha gorducha juntava o dedo polegar ao indicador para me mostrar um pedacinho de unha e dizer, sempre que eu a reclamava em tom alterado: “Olha o meu tamaninho e olha o seu, Ana Maria”! Essa constatação irrefutável me desarmava e me trazia de volta ao centro. Eu ficava ali parada, feito boba – olhando do alto do meu tamanho – aquela pessoinha de menos de seis anos de idade e pensando em sua lição de sabedoria. Acho que, naquele gesto, já se anunciavam a serenidade e o senso de justiça que norteariam os caminhos de minha filha na idade adulta. Essa moça tem o dom das palavras e com elas pretende lutar para reformar o mundo.
É isso meu pai, coronel Plínio da Matinha. Essa menina magrela, que tem pés de dançarina, mãos de desenhista e coração de poeta, pretende sair pelo mundo como uma Quixote – de shortinho curto ou de saia longa – defendo os oprimidos com a espada de luz de que são feitas as palavras. 

Ref. da imagem:vaqueiro fotografado por mim em 06-05-2012, no CCAM, no evento  "Celebração das Culturas Sertanejas".