quarta-feira, 27 de junho de 2012

O FRUTO PROIBIDO




 Quando ela retornou à sala, o menino comia vorazmente. Escondia o alimento entre as mãos. O suco escorria-lhe pelos cantos da boca. Ao perceber o olhar guloso da menina, passou a comer com requintes de prazer: chupava, revirava os olhos, estalava a língua, sussurrava e lambia os beiços. Que fruta era aquela? Onde ele tinha achado? SAPOTI! No quintal da outra professora! Implorou por um pedacinho, só para experimentar. Não. Se quisesse, fosse procurar pelo chão ou jogasse pedras até derrubar um. Então era por isso que aquele moleque corria para o quintal assim que a professora dava o recreio da banca! As meninas iam brincar na praçinha da igreja e voltavam tristes de fome, enquanto o peste do gordo enchia a pança e voltava do recreio todo risonho e ainda mais pirracento.
Teve vontade de se vingar. Podia combinar com as outras de contarem tudo à dona da casa. Com certeza, a velha Catarina iria lhe passar uma descompostura terrível e exigir da sobrinha, a meiga professora, um bom castigo para o atrevido. Naquele tempo, derrubar fruta do quintal do vizinho era malinagem imperdoável ou até mesmo um furto. Chegou a imaginar a cena: dona Catarina escura de raiva, postura de general, dedo em riste a exigir explicações; e o moleque pálido, colado na parede, a papada tremendo, sem conseguir gaguejar uma desculpa. Por alguns segundos, ficou dividida entre os dois prazeres: a vingança ou o sapoti. O recreio estava quase terminando, o tempo urgia e o estômago exigia. Olhou o relógio da sala e pediu a Deus que a professora cochilasse um pouquinho além da meia hora habitual. Correu para o quintal. Procurou, procurou e nada. Não havia nenhuma fruta no chão. O jeito seria atirar pedras. Olhou para o alto e viu o sapotizeiro imenso – tão alto quanto as palmeiras da praça – carregado de frutos. Ela tinha pontaria péssima, nunca conseguiria derrubar um sapoti. Atirou pedras até ouvir o sininho da professora. Voltou de cabeça baixa para não ver a cara debochada do gordo.
Aquele fracasso se repetiu infinitamente: quando saiam juntos ao quintal, ele dizia que não tinha nenhum sapoti maduro; se saía primeiro, o gordo ficava terminando uma tarefa; se ia brincar na praça, o bandido fugia para os fundos e ainda lhe mostrava uma fruta escondida no bolso da calça. O pior era quando ele não tinha tempo de comer e passava o resto da tarde lhe fazendo figa: cada vez que a professora se ocupava com uma das meninas,  apontava o bolso ou lhe mostrava uma pontinha do sapoti. Ela ficava doida para falar dos sapotis com as colegas, mas desistia porque um movimento maior no quintal, chamaria a atenção de dona Catarina ou mesmo do pessoal vizinho.
Foi assim até o finalzinho da safra, quando teve uma ideia salvadora: Chegaria à banca mais cedo e encontraria um ou dois sapotis caídos no chão; talvez até mais, porque chovera pela manhã e era segunda feira.
Assim fez. Com meia hora de antecedência, foi recebida por dona Catarina que lhe mandou ir brincar nos fundos porque era cedo demais e  estava com uma visita na sala. A menina voou até o quintal com a boca cheia de saliva e o coração exultante. Olhou, olhou, esquadrinhou palmo a palmo e não encontrou nenhuma fruta, sequer uma estragada. Frustrada em seu desejo, tomou uma decisão da qual se arrependeria por toda a vida.
Empilhou uns tijolos, juntou dois caixotes, trepou no muro e pulou para o quintal vizinho. E que maravilha!  O chão sob a sapata estava coberto de folhas e de sapotis! Escolheu os maduros, encheu a saia do vestido e, radiante, correu para pular o muro. Só então percebeu que, daquele lado, o muro era bem mais alto. Ansiosa, começou a procurar algo que lhe facilitasse a subida: uma pedra, um toco de madeira, uma escada. Não encontrou nada. Nervosa, avistou umas cadeiras na varanda e correu para pegar uma. Foi, então, que a brincadeira acabou.
Havia uma pessoa caída no quintal Seu coração disparou, os ouvidos zumbiram, as frutas despencaram do colo. Ali, no meio do caminho, um pouco antes da varanda, uma menina jazia no chão. Viu o vestido branco meio suspenso, as pernas abertas, o cabelo desalinhado, o rosto arroxeado e sujo de vômito. A menina estava morta. Era Valdirene, a filha da vizinha. Tentou gritar, não conseguiu. Ficou paralisada, mas de algum modo, suas pernas adentraram a casa deserta e chegaram ao quarto da mãe. Com um fiapo de voz, acordou a mulher e lhe falou da filha caída no quintal.  
Em poucos instantes, os gritos da mãe fizeram toda a vizinhança acorrer ao quintal. Angélica escapou pela porta da frente e fugiu para casa. Escapou, mas levou consigo uma fotografia daquele quintal: o muro sem reboco, a árvore imensa, a terra molhada, as folhas caídas, os sapotis esparramados no chão, a menina morta e a mãe agarrada ao corpo da filha uivando...uivando.
Só algum tempo depois, escutando um comentário aqui, um cochicho ali, ficou sabendo que a menina havia morrido envenenada. Uns diziam que Valdirene havia comido batata com leite no café da manhã, outros que merendara manga depois de tomar leite, e alguns sussurravam que a madrasta lhe oferecera um pedaço de bolo envenenado. A bruxa morava na casa vizinha e teria lhe entregado o bolo por cima do muro. Diziam que a viúva não queria repartir com a enteada a pequena fortuna que o marido deixara. Não achava justo com seus dois filhos que a bastardinha herdasse alguma coisa.
O caso foi abafado, e a verdade, que só o imenso sapotizeiro testemunhou, nunca veio à tona.
O tempo passou, a menina mudou de cidade, entrou na faculdade, tornou-se professora. Cresceu sem nunca experimentar um sapoti. De vez em quando, era tentada por um cesto cheio numa banca de frutas: parava, olhava e seguia em frente.
Um dia, uma colega lhe presenteou com uma sacola cheia de frutas.    Disse-lhe que era a fruta mais deliciosa do mundo e exigiu que comesse uma, ali mesmo, na sala dos professores. Angélica tirou um pedaço do pequeno fruto cor-de-terra. Mastigou lentamente. Engulhou. A fruta era doce demais; a polpa crespa e arenosa dava uma agonia na ponta da língua. Como era enjoado o sapoti! Que decepção!


Ana Maria Rosa (2011)

sexta-feira, 1 de junho de 2012

DÈJÁVU








Ia passando por uma rua próxima, quando sentiu o desejo irresistível de rever aquela casa. Parou o carro e deixou que suas pernas a levassem à rua das mangueiras. Era melhor voltar – uma mulher de trinta anos parecendo uma adolescente – iria apenas passar como quem não quer nada, só para dar uma olhada. De longe, avistou a casa amarela. Parou tentando recuperar a respiração. Ainda havia tempo de voltar. Seu corpo impulsionou-se até o número 25. Quedou-se observando: a fachada imponente, a porta entalhada, o muro de pedra, o jardim de rosas, a grade alta...  Em que momento tudo se acabara? Antes, entrava sem se anunciar, agora não podia sequer tocar a campainha. Precisava desistir. Dobrou a esquina e viu o portãozinho do quintal, aberto. Olhou para os lados e entrou.
 Experimentou o trinco da porta da cozinha. Arrodeou a casa, viu uma janela aberta. Volte, Marina, volte... Escutou o silêncio da casa, o coração aos pulos. Estava louca. Uma mulher casada com um deputado, mãe de dois filhos – escondida – espreitando o interior de uma casa!  Assomou a cabeça à janela e viu a sala de jantar parada no tempo: a mesa grande, as cadeiras de veludo verde, os quadros, o lustre. Apenas as cortinas eram novas – cor de vinho. Mulherzinha de mau gosto! Fechou os olhos, calculou a altura da janela – como da primeira vez que dormira com ele – agarrou-se ao parapeito e pulou.
Ouviu o chuveiro e a voz dele vinda de longe – Quem é?
Entrou no quarto, escondeu-se atrás da cortina, ficou a espiá-lo – belo e viril – enxugando o cabelo. Ouviu a ordem – Marina, saia daí!
Marina fundiu-se ao corpo nu. Sentiu uma mistura de prazer, felicidade e dor. Teve medo de estar sonhando novamente. Desejou morrer: não queria acordar em sua casa, na cama ao lado do marido.






















                                                      

terça-feira, 22 de maio de 2012

DISCURSO DE FORMATURA

Discurso da Oradora
Lua Marina Moreira Guimarães
Direito UEFS 2011.2

Magnífico Reitor da UEFS, Prof. José Carlos Barreto de Santana, em nome de quem cumprimento todos os demais membros da mesa; professores homenageados; pais, mães, familiares, amigos, companheiras, e a todas e todos os presentes, boa noite.
Estou aqui hoje porque a palavra me foi entregue. Nesse instante, tenho a tarefa de proferi-la, enquanto estudante de Direito e mulher. Eu sou a primeira mulher a ocupar este lugar na qualidade de oradora de uma turma de Direito. Mas eu só posso fazê-lo na condição de poeta, que não escreve poemas, mas compreende que é preciso estar constantemente dominada pela paixão, e que a linguagem mais compreensível às pessoas é a que lhes atinge direto no diafragma, sem intermédio de sinapses. A poesia transmite valores porque transmite emoções. Ela é essencialmente marginal, e também sofre a exclusão, como tudo que é inútil ao mecanismo da produção de riquezas. É assim que me revisto da mágica encantatória de fazedora de palavras, para em prosa mesmo, recitar os versos dos meus companheiros e companheiras. E para trazer as boas novas: seremos humanos.
Há tanta solidão por aí, tantos sonhos desfeitos, ausência de sentido e de alternativa para esse modo de vida desagregador, que nos sentimos encurralados, e a reação possível é quedar-se atônito. Não podemos escapar à angústia do tédio e da fluidez das relações. Para onde nos movimentamos? O futuro melhor é uma metáfora, os ideais de igualdade, liberdade e justiça foram profanados e falar deles é obsceno.
Então, o que nos espera? É muito difícil viver na desesperança. É preciso acreditar no que não existe, afinal, estar nesse mundo é conviver com ausências. A ausência é o desconforto, é o vazio deixado
por uma presença ressentida. Não podemos deixar de sentir essa angústia fundamental, de saber que há muito mais lá fora do que nossos olhos conseguem captar nesse momento. Não estamos cegos, é que os olhos não chegam para dar conta dos problemas reais. Precisamos recuperar a dignidade dos outros sentidos no aprendizado da vida. Abrir os ouvidos, o nariz, a língua, o corpo, ao arrepio da experiência é o começo da libertação da clausura da modernidade. É aceitar a emoção, o sentimento, como parte fundamental da compreensão de nós mesmos e do outro.
Ausente é tudo que não está aqui, que não é agora, que não mora, que não possui, e que não morre. Havemos de desvelar as ausências do Direito, e a sua inescapável qualidade de incompletude, como tudo em nosso tempo.
Muitos preferem acreditar que o Direito é um todo hermético. Sua influência, imagina-se, afeta todos os aspectos da vida humana, nos governa onipresentemente, e as suas soluções poderiam resolver todos os problemas. Mas o que há, de fato, é um sistema que regulamenta algumas situações, um conjunto de elementos normativos que tenta prever apenas alguns fatos, e dar uma resposta possível aos conflitos.
Há muito mais acontecendo à nossa volta do que o Direito jamais será capaz de dar conta. E nem é desejável que consiga. Para além do controle jurídico, as pessoas criam outras maneiras de organização e de convivência, que o nosso dogmatismo, o estreito molde em que as leis e os litígios são criados, não tem condições de compreender. E são nesses lugares, em que o Direito é comumente tão prescindível, onde surge a novidade e a esperança.
O Direito parece ser o lugar das ausências. As formas de vida resistentes ao avanço do retrocesso do projeto hegemônico de mundo, estão ausentes, não conseguem se fazer ouvir dentro do mundo
jurídico, pois a língua que falamos não lhes é acessível. Na voz que profere o Direito, não ouvimos o grito dos miseráveis, dos sujeitos organizados para resistir às várias formas de opressão; não percebemos o vigor das enxadas sulcando a terra seca, tão seca como desde 1982 não se via; não sentimos a respiração entrecortada das mulheres que abortam em risco de morte; ou a mãe periférica que pranteia o extermínio de seu menino que nem chegou a ser homem; não podemos ver os confrontos em que a sociedade se sustenta e estremece, e para cuja pacificação, as leis dizem ser feitas.
Precisamos ter em mente que nosso trabalho não é a mola do mundo, mas o poder conferido pelo domínio desse instrumento não é fictício. O Direito é a linguagem do poder político e reflete os objetivos e a conduta de quem são seus detentores. Nós não somos os donos do poder, nem tampouco devemos ser as engrenagens que garantem obedientemente sua reprodução. Devemos ser os operários da rebeldia, e dia-a-dia executar a jornada da revolta contra a dominação.
É preciso resistir às decisões jurídicas supostamente neutras, reconhecer o conteúdo político e valorativo dos nossos atos. É preciso resistir às práticas solidárias, cujo intento é manter a dependência dos sujeitos e grupos oprimidos. É preciso humanizar o Direito, retirá-lo de seu sonho de segurança jurídica para que escute os gritos detrás dos muros. O Direito exclui, a educação jurídica exclui, o poder exclui a riqueza da vida humana. Cria um ambiente acético, onde nós, futuros profissionais, devemos nos movimentar. Mas nós não somos estéreis, e se sabemos onde está a corrente da mudança, é para lá que devemos migrar. Vamos lavrar e semear na aridez dos cubículos normativos, vamos fazer chover a esperança com a nossa utopia.
Que não sejamos homens partidos, que estejamos inteiramente aqui, com nossas lonas pretas e indignação fundamental, para a ocupação da universidade. Inteiros para a construção de uma educação jurídica capaz de produzir presenças e não mais escamotear ausências. É preciso reconhecer os vazios históricos e transbordá-los de novidades. É preciso entranhar, pela pedra, a vontade do corpo, da alma, do coração, porque essa é a matéria humana.
Esse encontro nosso, durante esses cinco anos, essas pessoas, neste lugar, neste tempo, foi importante para que acreditássemos que, sim, o aprendizado dogmático do Direito é necessário, mas o aprendizado amoroso do Direito pode ser revolucionário. O amor como a desrazão que leva à transgressão, o amor que nos faz recuperar a visão, tomada pela cegueira leitosa das crenças do racionalismo. Talvez, melhor e mais importante do que o exercício competente da profissão, seja o trabalho poético do exercício apaixonado da profissão. Como não ver, por exemplo, a poesia no trabalho do juiz que manda soltar o ladrão das melancias, recusando-se a justificar seu ato, pela obviedade do sentimento de compreensão do desespero faminto do homem. E vejam a poesia do jurista Warat, que viveu sempre em estado de ardente emoção, “Só os apaixonados contestam, protestam, procuram a transformação. As paixões não cegam; elas iluminam, utopicamente, o destino do ser apaixonado. A paixão é o alimento da liberdade. Não pode, portanto, existir pragmática da singularidade humana, sem seres apaixonados que a realizem. A paixão é o que nos diferencia dos seres inanimados, que simulam viver olhando, indiferentemente, o mundo à espera da morte. Só os seres apaixonados têm condições de procurar viver em liberdade...”
A ausência de paixão nos lança no vazio da mera sobrevivência material, do abandono do espírito. No centro da pragmática rotina institucional, oficial, judicial, dos rituais, dos favores, da repetição, da frieza, do torpor, experimentamos uma existência prosaica e, portanto pobre. Uma existência poética, pelo contrário, é aceitar viver para viver, é estar presente nos espaços para queimar o tédio e a conformidade, e com as cinzas das horas, dar origem à estrela da manhã. Sem isso, estaremos perdidos na mesmice.
Como Drummond, “Estou presa à vida e olho meus companheiros./ Estão taciturnos, mas nutrem grandes esperanças.” Precisamos é de paixão, companheiros, de fogo no olho, corpo em carne viva de tanto debater-se pela liberdade, e na luta para seduzir os outros para essa tarefa comum.
Eduardo Galeano é quem conta uma história sobre fogo. Diz ele que:
“Um homem conseguiu subir aos céus.
Quando voltou, contou. Disse que tinha contemplado, lá do alto, a vida humana.
E disse que somos um mar de fogueirinhas.
- O mundo é isso – revelou. – Um montão de gente, um mar de fogueirinhas.
Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras.
Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores.
Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas.
Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam, mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto, pega fogo.”
Olho para nós, formandos do curso de Direito, e vejo um bocado de fogueirinhas, e estão vivendo em meu peito. Espero que sejamos para sempre fogos de alumiar com ternura e queimar com ardor, pra que quem for à lua, possa ver nosso brilho de lá.

Obrigada.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

FILHA DIPLOMADA: HOMENAGEM A UM SERTANEJO



Hoje é dia 17 de maio de 2012. Contagem regressiva: faltam dois dias para a colação de grau de minha filha Lua Marina . A família Rosa Moreira está se preparando para uma grande festa com roupa de seda, terno preto e banda de música. É justo que seja assim: ela será a segunda (a primeira sou eu) a concluir a graduação de nível superior. Receberá o diploma do curso de Direito da UEFS. Será advogada, “doutora adevogada” como diria meu pai, Plinio da Matinha. É dele que quero falar nesse texto.
Meu pai, se fosse vivo, estaria cheio de orgulho da formatura dessa neta e se sentiria recompensado por sua decisão de mudar-se do campo para a cidade, a fim de “dar estudo” aos filhos mais novos. Há quarenta e sete anos, ele e minha mãe deixaram a fazenda Matinha, grande e bem cuidada, e migraram para a cidade de Santo Estevão, a uns duzentos e poucos quilômetros de Salvador, com o sonho de ver a família progredir através das letras. Matriculou a filharada na escola e descansou o coração. Muitos Moreiras desviaram-se do caminho, mas alguns estão retornando, e outros ( netos e bisnetos) estão em faculdades ou começando os estudos. Vem muito doutor Moreira por aí, como seu Plínio sonhou.
Criei minha filha falando desse avô sertanejo, que ela não chegou a conhecer, mas de quem tem uma imagem forjada a partir de minhas contações de histórias da família. Aprendeu a admirar o homem que começou a vida como tropeiro, aos doze anos de idade, vendendo farinha no lombo do burro por todo o recôncavo baiano, até tornar-se proprietário de uma grande fazenda e próspero criador de gado. Ainda ontem, à noite, eu lhe contei de suas andanças pelos Gerais onde comprava gado: Numa madrugada, ele partia dirigindo o Jeep verde e, numa tarde, depois de trinta dias ou mais de ausência, ouvíamos a buzina do carro e começávamos a gritar “Pai evenhe, pai evenhe ...” até que  avistávamos o bravo jeepinho – agora vermelho – coberto de poeira das terras do Sertão Alto. Dele, saltava o motorista queimado de sol - marrom avermelhado dos pés ao chapéu panamá – os braços abertos, os olhos cheios de lonjuras e a voz rouca de causos que contaria na beira da fogueira. Alguns dias depois, o som do berrante anunciava a chegada da boiada, e meu pai corria para o avarandado com os olhos brilhando. Não demorava muito, avistávamos uma nuvem de poeira e, dali a pouco, um mundaréu de bichos invadia a malhada, e a fazenda se enchia de sons e de cheiros. Os homens encourados arranchavam na malhada, acendiam a fogueira e passavam a noite relatando ao patrão os percalços da viagem entremeados de histórias de assombração.
 Dessas viagens, trago na lembrança, nomes e imagens de terras longínquas onde nunca estive e um Sertão que mora aqui dentro, imantado de cores terrosas, sons de berrante e cheiro de estrume. Desse pai, carrego em minhas entranhas, valores inquebrantáveis: honestidade, senso de justiça, respeito à vida e apreço ao trabalho. Foi com esses valores que eduquei minha única filha, untando-os com a doçura do amor e colorindo-os com os tons da liberdade. O resultado está aí: uma águia fêmea que se lança no espaço, conduzida pelos ventos da liberdade. Lua Marina pertence a uma geração que acredita  poder mudar o mundo. É, muitos jovens de agora, voltaram a sonhar com a justiça social – velho sonho esquecido por minha geração que cresceu sob o manto negro da Ditadura. Lua pretende tomar para si, a causa do Direito dos fracos e desvalidos. Difícil caminho, perigosos atalhos, penhascos abruptos.
Em que momento a garota com nome de artista resolveu embrenhar-se na seara (devia ser Saara) do Direito?
 Parece que passou tão pouco tempo desde que minha garotinha gorducha juntava o dedo polegar ao indicador para me mostrar um pedacinho de unha e dizer, sempre que eu a reclamava em tom alterado: “Olha o meu tamaninho e olha o seu, Ana Maria”! Essa constatação irrefutável me desarmava e me trazia de volta ao centro. Eu ficava ali parada, feito boba – olhando do alto do meu tamanho – aquela pessoinha de menos de seis anos de idade e pensando em sua lição de sabedoria. Acho que, naquele gesto, já se anunciavam a serenidade e o senso de justiça que norteariam os caminhos de minha filha na idade adulta. Essa moça tem o dom das palavras e com elas pretende lutar para reformar o mundo.
É isso meu pai, coronel Plínio da Matinha. Essa menina magrela, que tem pés de dançarina, mãos de desenhista e coração de poeta, pretende sair pelo mundo como uma Quixote – de shortinho curto ou de saia longa – defendo os oprimidos com a espada de luz de que são feitas as palavras. 

Ref. da imagem:vaqueiro fotografado por mim em 06-05-2012, no CCAM, no evento  "Celebração das Culturas Sertanejas".

segunda-feira, 16 de abril de 2012

VIAGEM À TERRA DA INFÂNCIA




“Mas me parece certo que a infância só existe quando irremediavelmente perdida. Sua ausência estabelece tamanho vazio que se torna impossível olvidá-la. Vazio que se preenche com os conteúdos da razão, mas que se amplia pela intuição e memória.”

(Bartolomeu Campos)

Era tarde da noite. Só o brilho de umas poucas estrelas iluminava o céu. Eu conduzia o carro por uma estradinha de terra batida. Comigo iam três de minhas irmãs. Foramos à vila para assistir ao casamento de uma prima. Agora nos dirigíamos à fazenda de meu tio Ninim, pai da noiva, onde nos hospedaríamos. Em vão, procurávamos os rastros da comitiva de uns vinte carros, a uns oitocentos metros à nossa frente. Mas as marcas de pneus não existiam. Parecia que por aquela estrada, se andava a cavalo ou, quem sabe, em carro-de-boi. Não havíamos percebido em que momento a larga estrada de cascalho se estreitara e se transformara na estrada recoberta de areia branca. 
 De vez em quando, esperançosas, ligávamos o rádio: não funcionava. Tentávamos informar nosso paradeiro aos primos e pedir ajuda, mas meu celular não tinha sinal, outro descarregava e o próximo não funcionava. Em cada encruzilhada, um dilema: Por onde seguir? A irmã mais velha escolhia o caminho da direita, e íamos parar na trincheira de uma fonte ou numa cerca de arame. As mais jovens estavam perdidas. E eu? Saíra da Matinha há quase meio século, aos sete anos. Não conseguia lembrar direito de caminhos percorridos há tantos anos.
De vez em quando, parávamos a cantoria nervosa para escutar, ao longe, o pio agourento de uma coruja e no mais, era o silêncio. As fazendas pareciam desertas e abandonadas.
Meu carrinho continuava valente, desbravando o desconhecido e iluminando fracamente a noite que nos envolvia como uma capa de baeta. Cada uma de nós tentava reconhecer marcas impressas na memória da infância: a venda de seu Juvenal; a casa de dona Catarina; a fazenda de tio Edgar; o caldeirão de Zé Preto, o açude de Vavá... Mas  nada. Tudo parecia mudado, estranho, diferente.
 A noite avançava fria e misteriosa. Seus fantasmas gasosos esvoaçavam em torno de nós, e a penumbra nos envolvia. A lua pequena e redonda pouco iluminava o caminho, e cheguei a suspeitar de que ela se escondesse entre as nuvens sempre que a estradinha penetrava no matagal. Valei-me, Nossa Senhora! – eu suplicava em silêncio.
O tempo voava – diziam nossos relógios, implacáveis – mas o mundo inteiro havia parado. Sem luz acesa, choro de criança ou gemido de idoso, as casas pareciam desertas. Nas vendas não havia, por baixo da porta, uma réstia de luz que indicasse movimento de jogo. Nem as folhas se mexiam. Tudo parecia etéreo e irreal, como se fosse o cenário de um filme de terror.
  Num galho de baraúna, os faróis iluminaram uma coruja silenciosa e preocupada. Diminui a marcha, contente de avistar um vivente. Tentei conversar, na esperança de alguma pista. Indiferente, soltou um pio e debandou num vôo desordenado, como se também estivesse perdida. Ao longe, pareceu-nos que gargalhava de nosso infortúnio.
De repente, a estrada se bifurcou. Assustadas, percebemos que já havíamos passado da entrada da fazenda. Não vimos a cancela! O jeito era voltar ou seguir em frente tornando a viagem ainda mais longa.
Verifiquei o combustível, e decidimos continuar em frente. Chegaríamos à fazenda pelo lado oposto. Esse caminho era conhecido: por ele, chegaríamos a nossa antiga fazenda. Essa certeza nos acalmou um pouco.
Logo comecei a reconhecer aquelas paragens. Num impulso, estanquei o carro para observar melhor. Estamos, chegando à fazenda Paratigi – afirmei com convicção. Olhei em volta, extasiada. Tinha certeza de estar pisando em território de fadas e dragões. Estávamos muito perto do Sobrado. Minhas irmãs, nervosas, discordavam. Era impossível havermos feito uma volta tão grande. Então havíamos passado pela fazenda de tio Edgar e pelo açude sem reconhecê-los?
Prossegui lentamente até avistar um terreno amplo e circular. Com o coração acelerado, gritei: Estamos perto do Sobrado! Nenhuma delas acreditou, mas o carro desceu a ladeirinha e estancou. Dali, avistamos o Sobrado. Sua misteriosa silhueta negra apareceu diante de nós – recortada contra o céu cinzento – envolta em brumas, fantasmagórica, tal qual nos meus sonhos. Um medo antigo me assaltou: o casarão era mal-assombrado; muitos escravos morreram na cafua; um dos donos se suicidara; almas penadas ofereciam tesouros enterrados. Foi um alívio deixarmos o casarão para trás.
         Adiante, era preciso atravessar a pontezinha do rio Paratigi. De longe, vi que estava seco. Parei no alto com o coração descompassado. Carregava comigo a velha imagem do rio: largo, cheio, perigoso. Era desse rio que tinha medo. Tomei coragem e já descia a ribanceira do velho Paratigi, quando percebemos – desorientadas – que não mais existia a pequena ponte! Com certeza, fora destruída por uma enchente. A não ser que estivéssemos atravessando outro trecho do rio. Que noite!
O carro passou, aos solavancos, arrastando-se sobre as pedras maiores. Mal subimos a ribanceira, ouvimos um estrondo. Quando olhamos para trás, vimos – em transe – que o rio enchia rapidamente. O canguçu rugia, escuro, traiçoeiro, barulhento... Era de novo o rio de nossa infância. Ao amanhecer, uma comitiva de cavaleiros iria ver a enchente. Era assim antigamente.
 Depois do rio, era seguir direto até a fazenda Matinha, a primeira fazenda de meu pai. Dali, seria fácil chegar ao nosso destino. Estávamos tão perto! Breve, passaríamos perto da pequena mata que nomeava a região.  Há tempos, soubemos que fora derrubada para o plantio de capim – a nossa mata – com seu riacho amarelo e seu cheiro de orquídea. Na cerração da madrugada, tínhamos a impressão de avistá-la ao longe. Embora continuássemos, às cegas, sem reconhecer os lugares, já não tínhamos medo. Envoltas no manto da noite e na névoa do sereno, cada uma de nós, a seu modo, se preparava para adentrar um território sagrado: a terra da infância. Era para lá que a estradinha de areias brancas nos levava.
 Próximas de nossa antiga casa, sentimos cheiro de velame e de angélicas selvagens. Parei o carro em frente a casa, sob a copa da baraúnas – as mesmas onde brincávamos – fomos recebidas pelo perfume intenso e adocicado dos jasmins, as flores de nosso quintal. O velho casarão silencioso, nos espiava depois da malhada. Era a mesma casa onde havíamos nascido: as paredes caiadas de branco, as janelas azuis, a casa de farinha transformada em depósito, o curral grande, outro menor. Talvez ainda existisse o velho pilão, o fogão de lenha e o tacho de cobre onde nossa mãe cozinhava o requeijão.
 Se pulássemos a cerca, depois da ladeira nos fundos, chegaríamos ao riachinho e nos banharíamos em suas águas escuras.
Não, nós não pulamos a cerca.
         Seguimos para a casa do tio. Íamos as quatro, conscientes de havermos viajado por um reino solitário e inatingível – o reino da infância.
                                                                      
                                                                                     ( Fevereiro de 2008)










   
 
                                                           
                                                                                                                                                                                                                                                              

segunda-feira, 19 de março de 2012

VIAJANDO COM ALEILTON FONSECA

Foto de Sebastião Salgado


ENCONTRO COM “NHÔ GUIMARÃES”

Esse é o segundo comentário de leitura que faço do livro de contos “O Desterro dos Mortos” do autor Aleilton Fonseca. Falo do conto “Nhô Guimarães”.

Desde o título, percebi que aquela prosa iria ser boa. Apeei do cavalo pouco depois de Aleilton, e fui logo me acomodando. Ele já sentara perto da velha sertaneja, tomando nota de tudo que ela dizia, do mesmo jeito que ela falava: “O senhor se querendo, anote.” É isso mesmo, não se engane, não! O moço que chegou a cavalo e foi confundido com Guimarães Rosa – Nhô Guimarães – como era conhecido nos Gerais, é Aleilton Fonseca. Aliás, pretendo demonstrar que ele se faz presente em quase todas as histórias desse livro. Isso não é fácil de perceber, mas um leitor mais atento descobrirá que ele se presentifica no ambiente das histórias, através de um alter ego – um jovem instruído – oriundo da cidade grande, mas de origem sertaneja. Esse moço viaja – precedido pela Morte – para reencontrar pessoas ou, simplesmente, para recordar o passado.
Nesse conto, intitulado “Nhô Guimarães”, o moço chega a cavalo, apeia na casa da velha e passa a ser, apenas, o ouvinte. Não há nenhum registro de fala sua, embora a velha  lhe dê conselhos e lhe faça perguntas retóricas...  Assim, ele está onipresente em toda a narrativa, escutando o relato da velha senhora, aceitando café coado na hora e bebendo água do pote: “Assunte esse diálogo e pronto, depois a gente prova mais um café coado.” Aleilton Fonseca poderia (ele é o dono da história) ter escolhido esse personagem como narrador. Mas, não. O narrador é a velha sertaneja, e, nisso reside grande parte do encanto desse conto. O autor dá voz a essa mulher que – num monólogo ininterrupto – relembra e revela episódios de passado, principalmente as visitas de Nhô Guimarães, a quem ela define como "um homem de sobejas importâncias". É o mesmo processo narrativo do autor Guimarães Rosa, no livro Grande Sertão: Veredas. Ali, o sertanejo Riobaldo recita um monólogo revivendo o passado de jagunço e a trágica história de amor com Diadorim, ao confiá-la a um ouvinte de passagem por sua fazenda. Ao usar o recurso do monólogo, Aleilton pode, livremente, registrar a linguagem oral do sertão, pontuada de arcaísmos (prosar, pitos... perquiriu, assuntar) e de frases saborosas: “Ah, me deixe! Eta, diaaaá! Ah, pois não é?”  Essa é a linguagem do povo do sertão – pessoas de muitos saberes e pouca instrução – um dialeto cheio de palavras e ditos que há muito caíram em desuso na cidade grande e cercanias.
Então, essa linguagem, assim como o fio da narrativa em forma de monólogo – na voz de um personagem sertanejo – a relembrar o passado, reafirma aquilo que já se anunciava no título: o conto “Nhô Guimarães” é uma homenagem ao escritor Guimarães Rosa. O tempo inteiro, Aleilton Fonseca nos conduz com seu fio mágico pelas veredas do sertão e nos enreda numa teia, que semelhante a uma ponte pênsil, nos leva ao já citado romance de Guimarães Rosa, num movimento contínuo de vai e vem.
Chama minha atenção, também, o fato do narrador-personagem ser uma pessoa idosa: octogenária, independente, ativa e lúcida. Ela recorda o passado e revive fatos importantes guardados em sua memória afetiva e os presentifica através do ato de narrar. Isso a faz viver com plenitude: “Eu narro, no gosto de contar o causo, até melhor que a realidade.” Com esse personagem, o autor reverencia o idoso como alguém que acumulou inúmeras experiências, donde deriva sua sabedoria. A octogenária, em vários momentos, previne e aconselha o moço da cidade que escuta sua narrativa: “O bem e o mal, esses amigos, andam de abraços: todo cuidado é pouco”. Ou “Fique no aguardo: de vez em quando o tempo dá um suspiro”. Além disso, ela retoma o papel de guardiã do passado, uma tradição que vem desaparecendo em nossa sociedade, que supervaloriza a juventude e despreza os mais velhos. Quem sabe, guardar e recordar o passado não seria um modo prevenir o mal de Alzheimer?
Destaco, ainda, o fato de que o personagem é mulher. É uma mulher plena, sábia, legítima representante do feminino sagrado. Ela parece erguer-se de um passado longínquo onde a mulher era a sacerdotisa, a senhora da criação, a guardiã de vastos saberes. Esse papel se evidencia em suas próprias palavras: “Hoje eu mando em tudo, estou no meu direito“; “Reconto a vida do meu jeito que gosto muito de prosar comprido”.
Nesse ponto, eu poderia encerrar minhas inferências de leitura, mas me comprometi, desde o título, a fazer o relato de uma viagem. Então, retomo esse destino relembrando a chegada.
Depois de tomar assento, fiquei escutando a prosa comprida da velha e, à proporção que ela contava os causos, eu tinha a impressão de que a pequena casa ia sendo povoada por aqueles personagens: Manu, o finado marido; o filho desaparecido na cidade grande; Nhô Guimarães, vestido com o gibão de couro preto, dando risadas, a fazer anotações das prosas de Manu. Até Manuelzão passou de relance tocando uma boiada. Porém, a certa altura da prosa, meu pensamento voou, que em pensamento ninguém manda, e eu arribei dali e fui seguindo por uma veredazinha pracatá, pracatá, pracatá... Quando dei por mim, estava no sertão de dentro – no meu sertão interior – território sagrado com cheiro de velame, som de berrante, gosta de umbuzada, banho de riacho e céu estrelado. Essa é uma das mágicas da arte literária, não é mesmo?
Pois então, doutor Aleilton, vou me demorar nesse pouso, porque tem muita gente querendo seguir viagem comigo: é vaqueiro, é cigano, é maluco, é rendeira, é parteira e até assombração.
Encerro está viagem (com um recado para vosmicê e para todo mundo) parafraseando a velha sertaneja: Eu escrevo, no gosto de contar histórias, até melhor que a realidade. Há muito aprendi que as histórias têm poder de cura, pois através delas podemos dar passagem aos apelos do sentimento, sendo que a maior parte de sua beleza consiste no jeito de contar.

quinta-feira, 8 de março de 2012

HOMENAGEM AO DIA INTERNACIONAL DA MULHER - UMA MULHER EXTRAORDINÁRIA

FRIDA KAHLO

 
“ Piés para que los quiero, si tengo alas pa’ volar?”


 Nessa data, 08 de março, em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, escolho Frida Kahlo como símbolo do feminino; uma mulher do século XX, forte e passional, capaz de viver com toda intensidade uma vida marcada pela tragédia e pelo sofrimento.  
Admiro Frida Kahlo sob todos os ângulos de sua pessoa emblemática.  A primeira coisa que soube sobre Frida foi através de sua pintura. Abri um jornal, folhei o caderno de arte, e ali, estava uma fotografia da tela “A Coluna Partida”, tomando a página inteira. Prmeiro, levei um choque e fui tomada por um sentimento de estranheza e de inquietação, diante da representação de uma mulher crivada de espinhos; depois, por uma forte emoção. Li a matéria e descobri que era um autorretrato de Frida Kahlo, uma pintora mexicana. Desde então, enchi-me de crescente admiração por essa mulher extraordinária e por sua pintura original e comovente, indissociáveis uma da outra. Olhando as telas de Frida, é possível saber muito da mulher ousada, desafiadora e sofrida que ela foi, uma vez que o tema de sua arte é ela mesma, como afirmava: ''Pinto a mim mesma porque sou sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor.'' Mas, ao mesmo tempo, é preciso conhecer um pouco de sua vida para compreender melhor a sua pintura.
 Magdalena Carmen Frieda Kahlo y Calderóron, Frida Kahlo nasceu no dia 6 de julho do ano de 1907, na cidade de Coyoacán, próxima da Cidade do México, atualmente um distrito. Ela veio ao mundo dentro da própria casa de seus pais que ficou conhecida como La Casa Azul (A Casa Azul), hoje, Museu Frida Kahlo
                                                   Museo La casa azul
Seis anos depois, seu corpo sofreu o primeiro estrago: a poliomielite a deixou coxa por causa de problemas no pé e na perna direita.  Na adolescência, tentando esconder esse defeito, passou a usar calças compridas; mais adiante, saias longas, coloridas e extravagantes  – referências explícitas de sua origem indígena e espanhola – que se tornariam uma de suas marcas registradas e, em nossos dias, fonte de referência no mundo da moda.
Com dezoito anos, ela voltava da escola, quando o ônibus em que viajava chocou-se com um bondeO pára-choque de um dos veículos perfurou-lhe as costas, atravessou sua pélvis e saiu pela vagina, causando uma grave hemorragia. Frida ficou muitos meses entre a vida e a morte no hospital. Foi operada diversas vezes para reconstruir seu corpo, que estava todo perfurado. Tal acidente obrigou-a a usar vários tipos de coletes ortopédicos, e foi, nesse momento trágico, que ela encontrou uma saída na arte. Durante a sua longa convalescência, começou a pintar seus autorretratos, usando a caixa de tintas de seu pai e um cavalete adaptado à cama. Nesse período pintou aquele que é considerado um de seus trabalhos mais belos e expressivos: a tela intituladaA Coluna Partida”
                                           A coluna Partida

Nesse autorretrato, que tanta emoção me causou, não é difícil perceber a determinação e a coragem de Frida, de cabeça erguida, apesar das lágrimas e da expressão de tristeza e sofrimento.  Seu corpo está rasgado ao meio, sustentado por uma coluna toda fraturada. O colete de tiras, que parecem de aço, aperta seu peito e sua coluna. O seu corpo crivado de espinhos, até por cima da saia, faz lembrar o suplício de uma santa. O deserto, ao fundo, ressalta sua solidão e seu sofrimento.
 Frida, aos poucos, convalesceu-se do acidente, mas seu corpo ficou com lesões e dores, que a acompanhariam por toda a vida e a levariam a submeter-se a dezenas de cirurgias. Ela passou a maior parte do tempo de sua breve existência, deitada numa cama, sofrendo dores que muitas vezes não conseguia suportar. Mas, apesar das limitações e do sofrimento (uma das razões da grande admiração que desperta) e do pouco estudo de desenho antes do acidente, Frida conseguiu aprender pintura, sozinha, pintando autorretratos e retratos dos parentes.
Em 1928, três anos após o acidente, Frida entrou para o Partido Comunista Mexicano. Lá, conheceu o pintor muralista Diego Rivera, com quem se casaria um ano mais tarde. Foi um casamento de amor e de muito interesse políticos e artísticos em comum. Frida amava Diego loucamente e deixou vários registros do que ele significava para ela e de quanto o amava: ''Diego está na minha urina, na minha boca, no meu coração, na minha loucura, no meu sono, nas paisagens, na comida, no metal, na doença, na imaginação.''
 
                             Frida e Diego

          Sob a influência da obra do marido, a pintura de Frida Kahlo evoluiu. O artigo publicado no site Casa Operária em 12 de agosto de 2007, ano do centenário da artista, analisa sua evolução artística:
 “Ela adotou o emprego de zonas de cor amplas e simples, características da arte popular mexicana. Procurou na sua arte afirmar a identidade nacional de seu país, por isto adotava com muita freqüência temas do folclore e da arte popular do México. Ao lado de Diego, Frida foi adquirindo brilho próprio, por seu trabalho possuir um estilo incomum para a época, principalmente para uma mulher. Dezenas de nomes do mundo artístico e intelectual estiveram ligados a Frida Kahlo durante este período: André Breton, Julián Levy, Leon Trotsky, Tina Modotti e David Alfaro Siqueiros. A primeira exposição da obra de Frida foi realizada em Nova York, em 1939 e, em seguida, viajou a Paris. Foi a primeira artista mexicana a expor no Museu do Louvre. Em 1943, tornou-se professora de pintura em “La Esmeralda” em Coyacan, uma escola de artes vinculada ao Ministério da Educação.  No México, sua primeira exposição foi acontecer apenas em aconteceu em 1953, um ano antes de sua morte.”
                                      Auto-retrato com Colar de Espinhos
Um fato interessante sobre a exposição no seu país, tão longamente esperada, é que Frida, contrariando ordens médicas, compareceu deitada numa cama. Contam que passou a noite bebendo tequila e dando muita risada com os amigos.
Mas nem tudo correu bem em sua ligação com Diego Rivera. O casamento foi marcado por muitas brigas e traições de ambas as partes. Diego, embora achasse natural Frida relacionar-se com mulheres, não tolerava que se envolvesse com homens. E ela sofria demais e desesperava-se com as traições do marido. Por isso, alguns biógrafos afirmam que seus romances extraconjugais eram motivados pela vingança. Seu marido foi amante de Cristina, a irmã mais nova dela, e Frida só descobriu isso quanto encontrou os dois na cama de Diego. Eles mantiveram um caso por muitos anos e tiveram vários filhos.  Após o flagrante, para vingar-se do marido, Frida cortou seu cabelo enorme, que ele tanto venerava. Separou-se de Diego e deixou residência do casal em San Angel, onde moravam em prédios ligados por uma ponte. Mas, depois de alguns anos e do divórcio, pedido por Diego, voltou para o ex- marido. Casaram-se novamente e foram morar na Casa Azul. Tiveram um segundo casamento tão ou mais tumultuado que o primeiro. Ela passou a viver uma vida triste, entre brigas com amantes de Rivera e tentativas de suicídio. Em seu diário, ela assim analisa seu relacionamento com o marido: "Diego, houve dois grandes acidentes na minha vida: o bonde e vc. Vc sem dúvida foi o pior deles." 
                                                         A Corsa Ferida

 Além do sofrimento com as traições do marido, carregou consigo outra grande dor: nunca conseguiu dar a luz a um filho. Ela engravidou algumas vezes e, em todas, abortou.
Todas as experiências boas ou ruins estão fixadas em sua obra, essencialmente, autobiográfica. O artigo, já citado, continua analisando a arte revolucionária de Frida Kahlo:
     “Seus quadros tem como característica básica o fantástico, que frequentemente é taxado de surrealista, uma terminologia imprecisa porque, enquanto os surrealistas pintavam o subconsciente, o escondido, o sonho, o irreal; Frida pinta as emoções por que passou. Ela mesma declarou mais tarde: "Acreditavam que eu era surrealista, mas não o era. Nunca pintei meus sonhos. Pintei minha própria realidade". Por meio dessas obras, é possível identificar as diversas passagens de sua vida. Como as referências ao acidente, as dores na coluna, a poliomielite, os abortos, o desejo da maternidade, que nunca realizou, as frequentes internações. O fantástico em Frida é o real, o consciente. A sua pintura é única; é a biografia de suas lutas e sua tragédia pessoal. André Breton escreveu: “ A Arte de Frida Kahlo é um garrote em torno de uma bomba”. Frida impressiona! A sua frágil figura contrasta com a força de sua procura por liberdade e sua tragédia, Frida transformou a pintura em um instrumento de libertação pessoal, algo que pode ser observado em uma das mais comoventes passagens de seu diário: ''Pintar completou minha vida. Perdi três filhos e uma série de outras coisas, que teriam preenchido minha vida pavorosa. Minha pintura tomou o lugar de tudo isso. Creio que trabalhar é o melhor.''
                                                  Dois Nus na Floresta
                                                            
        A característica revolucionária de sua obra reside no fato de ter sido umas das primeiras artistas a retratar de modo realista, agressivo e, ainda assim erótico, a feminilidade. Dentro de uma linguagem visual própria e original, ela pintou seus quadros com temas como a gravidez, o parto e o aborto. Em outra tela, um belo exemplo de seus inúmeros autorretratos (outro traço marcante de sua produção), "Diego no meu pensamento", podemos encontrar também características importantes da obra da pintora: a representação da sua imagem, a exposição da sua própria vida, com a imagem de seu grande amor lhe surgindo na testa ; e a indumentária tradicional mexicana, aliada a uma certa tropicalidade, que remete ao clima quente mexicano, com a saturação de cores e o ambiente térreo de tons alaranjados.
 
                                                                     Diego em Minha Mente
                                         
     Em 13 de julho de 1954, Frida, com 47 anos de idade, é encontrada morta. Seu atestado de óbito constatou embolia pulmonar, devido a uma forte pneumonia, mas a possibilidade de overdose de remédios também não fora descartada, sendo a mesma, acidental ou não. Existem suspeitas de suicídio, mas também, de que possa ter sido envenenada por uma das amantes do marido.
       Na última frase, escrita em seu diário, Frida despediu-se assim: "Espero que minha partida seja feliz, e espero nunca mais regressar". Porém, essa mulher extraordinária eternizou-se nas pinturas; no seu diário, traduzido em outras línguas; nas telas, com os filmes: Frida Natureza Viva (1983) do diretor Paul Leduc – filme mexicano. E Frida (2000) da diretora Taymor – filme norte-americano.




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